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Bilhete funerário

Antônio esperava Fabiana no altar. Nunca houve nem haveria dia mais feliz em sua vida. O terno fora comprado pelo pai, Goldofredo, cujo olhar não admitia jamais qualquer tipo ou sombra de imperfeição nos bens que adquiria. Era um homem distinto, pelo menos se esforçava em passar essa imagem, mas sofria internamente pelo fato de ser injustamente acusado por todo o bairro de ser um homem cheio de melindres, pomposo e adorador do luxo que não possuía. Já a mãe, dona Gorete, costureira desde os treze anos, amava quando saía com o marido pra comprar um par de sandálias uma vez por ano. Era sensacional. Embora se assustasse frequentemente com o barulho e movimento dos carros e precisasse tomar remédios para combater a tontura e mal estar provocados pela aventura de sair à rua, sentia-se no fundo feliz ao caminhar pela cidade de mãos dadas com o marido, aliás, quase pendurada ao seu braço esquerdo. Era uma mulher simples. Contentava-se até com o que sobrava do nada. Tinha ainda a vantagem de ser uma excelente dona de casa. Mercado de trabalho talvez soasse aos seus tímpanos como a “Terra do Nunca”.

Os dois estavam lá, esbanjando emoção nos sorrisos trêmulos, lenços e olhos avermelhados. Pareciam dois pombos, admirando a igreja, suas pinturas e resquícios de ouro. Seu Goldofredo, como sempre, cumprimentava os convidados com a seriedade e postura de um general. Já dona Gorete, sorria delicadamente, inclinando a cabeça ora pra um lado, ora pro outro, demonstrando uma afabilidade até com os estranhos como se já os conhecesse há pelos menos três séculos.

Antônio, por sua vez, continuava lá, estático feito um cabide, sério, com um leve ar de emoção. Mas, na verdade, estava controlando-se. Amava a Júlia. Ah... Como a amava. Na última vez que foi visitá-la deu-lhe um buquê de rosas que quase lhe custou o nome no SPC. Isso mesmo, Serviço de Proteção ao Crédito. Antônio era pobre, mas só materialmente. Tinha um coração cheio de amor, além de possuir qualidades que o tornavam um home de valor, como ser educado, trabalhador, esforçado e fiel. É preciso que se ressalte isto, fiel. Antônio jamais traíra Fabiana, nem quando queria. Nessas ocasiões sua consciência o acusava fortemente e ele chegava sempre a ela com aquela cara de quem pede perdão pelos pecados que a imaginação cometeu. Adorava olhar Fabiana, em qualquer situação ou circunstância. Apreciava cada movimento, cada olhar, cada palavra exprimida por aqueles lábios doces e carnudos. Gostava de vê-la penteando-se, jogando pra trás seus longos e sedosos fios pretos que quase batiam na cintura. Achava bonito até mesmo quando a via mal-humorada ou irritada. As expressões de raiva, tristeza ou agressividade de Fabiana, nada mais eram que traços de sua beleza inversa. Fabiana era pra Antônio o que o terno do casamento era pra seu Goldofredo, indiscutivelmente uma entidade perfeita.

Ocorreu que, num dado momento, naquele em que os semblantes dos convidados começam a variar entre expressões de cansaço e caras de enterro, Antônio deu-se conta de que Fabiana estava mais atrasada do que rezava o protocolo. Por que tanto atraso? Acontecera alguma coisa? O que teria acontecido? O tempo foi passando, o ponteiro do relógio agora corria à velocidade da luz e consequentemente as interrogações já começaram a desenhar-se na testa dos que aguardavam a cerimônia, desde os mais inocentes aos mais maliciosos.

Os pés de Antônio já travavam grande luta com os sapatos. Sua face agora só transmitia sinais de preocupação e angústia. O que estava acontecendo? Onde estava Fabiana, a mulher de sua vida e pós-vida? Começou então a sentir uma forte dor no coração. Diga-se de passagem, era um rapaz meio sensível, qualquer coisa o fazia sentir falta de fôlego e a suar frio. Mas neste caso, não era qualquer coisa, eram horas inexplicáveis de atraso no dia da sua iminente transição para a felicidade sem fim. Seu Goldofredo aproximou-se do rapaz e num ato de extrema sensibilidade e compreensão, pediu-lhe gentilmente que não exagerasse nos movimentos para não correr o risco de amassar o terno. Dona Gorete já havia sentado. Antônio se perguntava por que as pernas de sua mãe estavam trêmulas. Saberia ela de alguma coisa? O tremular das pernas seria a confissão óbvia de um segredo guardado? Nesse instante de dúvida irrespondível um menino vindo da rua entrou apressadamente no recinto e, correndo em direção a Antônio, entregou-lhe um pequeno papel rasgado de caderno. Era um bilhete, maldito bilhete! A dor no coração de Antônio foi aumentando, aumentando até que o terno empoeirou-se ao beijar-se repentinamente com o chão. Seu Goldofredo não teve forças para levantar-se da cadeira onde automaticamente despencara, muito menos para tirar o rapaz do tapete.

A igreja levantou-se num movimento sincrônico emitindo um sonoro “ooh...!!” Alguém, não lembro quem, chamou a ambulância que levou o rapaz ao centro cirúrgico mais próximo. Na verdade, Antônio tinha sérios problemas de coração. Já havia se submetido a três intervenções cirúrgicas.

No hospital, familiares, amigos e (fãs!) aguardavam notícias que rapidamente chegaram. Antônio morreu. Triste dia. Triste fim.

No bolso do terno de Antônio o bilhete de Fabiana: “Amor, eu sempre te amei.”

Antônio morreu e até hoje não se sabe exatamente se fora de amor ou de perversa ambiguidade.

Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 25/02/2006
Código do texto: T116039
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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