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Verde, amarelo, vermelho


Mariana estava mais uma vez naquele poste, cuja luz amarelada confundia-se com a fumaça espessa de seu cigarro. Um cigarro barato, daqueles que acompanham desenhos de caveira no caixão. A noite transcorria bela no movimento dos carros que iam e viam diante de Mariana, com vidros fechados, ar ligado e música suave e romântica. Mas dentro de si, Mariana sentia um inferno de dores e frustrações que pediam mais e mais fumaça pra dentro do que ainda restava de seus pulmões. Carregava no corpo um vestido que talvez já fosse sua sombra e, se algum dia lhe perguntassem: “ei, quem é você?”, ela poderia, sem cometer, sob qualquer aspecto, crime de falsidade ideológica, responder: “eu sou eu e meu vestido”, (vide Ortega y Gasset).

Mas o que me chamava atenção em Mariana era seu olhar, revestido de uma névoa densa que disfarçava os bichos da floresta, um olhar duro e seco, que crucificaria a si e a qualquer alma “viva ou morta” que lhe aparecesse naquela noite.

Mariana comia fumaça e pedia inconscientemente que os céus se abrissem e de lá de cima caísse um raio que partisse ao meio a tudo e a todos. Não havia como tocar em Mariana. Não havia como se aproximar de Mariana. Não havia como ouvir coração em Mariana.

Ela continuava, quase que num ritmo frenético, a jogar pra trás seus poucos fios de cabelo ressecados. Cuspia de instantes em instantes quase no pé. Tossia. Tossia. Encostada no poste, já parecia poste, dura, seca, insensível. Olhava a noite de quem era amante. De fora, ouvia o silêncio de uma avenida indialogável que se abraçava ao seu, sobre gritos sufocados no porão.

Um grilo cantando, a luz amarelada do poste e as outras do semáforo que terminavam por distraí-la: “verde, amarelo, vermelho. Vermelho, verde, amarelo”. Do alto do prédio, uma senhora fechava as janelas e cortinas para não sentir-se invadida pela cores, ruído e vozes da noite. De baixo, Mariana continuava comendo fumaça procurando lembrar da sensação de deitar numa cama macia.

Eu não sabia quem era Mariana.

No outro dia, foi encontrada uma moça abraçada a um poste com batom borrado, pernas arranhadas e um tiro certeiro na nuca.

Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 25/02/2006
Código do texto: T116044
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
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