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Sete Almas

Naquela manhã fria e escura, um sol vermelho nasceu entre nuvens negras anunciando o inevitável fim das Sete Almas do 3º planeta. Assim nasceu o último dos dias. Trevas e sofrimento foram semeados pela chuva mórbida de sangue que tingiu de vermelho as águas dos rios do norte. A morte e a dor esculpiram nas geleiras do sul uma paisagem púrpura e sombria perante os olhos daqueles que observavam de longe. Para os que se aproximaram daquela região, foi clara a imagem das faces e olhares de medo e angustia dos homens mortos, petrificados pelo frio intenso. O dia perdeu sua alegria e se rendeu à tristeza. A noite se esqueceu da beleza e se tornou mágoa. Os homens e as mulheres renegaram o amor e se entregaram à guerra. O início do fim anunciava a derrota da esperança.

Uma antiga lenda dizia que o 3º planeta, no início dos tempos, era habitado por 4 almas concebidas pelo Sol, que possuíam o poder de criar a matéria e a vida. Os quatro elementos: Terra, fogo, água e o ar. Assim se fez toda a natureza do planeta. A Lua, menos poderosa mas possuidora de enorme sabedoria, observando o feito do Sol, lançou sobre o 3º mundo outras 3 almas que dariam à toda aquela vida, o que o Sol não deu importância. A Lua criou as almas do amor, do livre arbítrio e da vaidade, e às deu aos seres humanos, iniciando-se assim a jornada daqueles que, no início dos tempos, semearam o mundo de vida e bons sentimentos.

Durante séculos, a paz e a prosperidade reinaram sobre o 3º planeta. As 7 almas controlavam os elementos e davam à vida dos homens um caminho iluminado. O Sol e a Lua celebravam a perfeita junção de seus feitos. Assim, aquele mundo viveu harmoniosamente durante longas eras.

Um dia, uma das almas da Lua, a alma da vaidade, entediada de toda aquela vida pacata e harmoniosa, se encheu de grande desejo de se tornar um ser de carne e osso, sentir o calor daquele mundo e viver do amor que os homens compartilhavam.

Sem o consentimento da Lua, a vaidade tomou posse de um corpo de carne sem conhecer aquele novo universo do qual ela iria fazer parte. Possuída pela inveja da vida, aquela Alma se fundiu ao Homem tornando-se o que o mundo não precisava, se tornou o indesejável e desprezível. A vaidade fundida ao homem se tornou um ser consumido pela inveja e ambição, conduzindo o destino dos habitantes do 3º planeta à conflitos e guerras que transformariam o futuro em trevas e ausência de luz.

Tomado pela ira e decepção, o Sol se revoltou contra a Lua e suas Almas por sua imprudência e invocou o poder de suas 4 Almas para banir da terra as Almas da Lua. Durante séculos, essa batalha épica travada no céu castigou o mundo com escuridão e trevas, até que finalmente, o Sol baniu a Lua dos céus e abandonou seus grandes feitos divinos. Transformou a Alma do amor em ódio, a alma do Livre arbítrio em discórdia, a Alma encarnada da Vaidade se tornou inveja. O Dia se tornou noite e o Sol abandonou o 3º mundo se tornando frio e vermelho. Adormeceram por toda a eternidade as Almas dos elementos, condenando todos os seres vivos ao fim e a escuridão infindável, conduzida pelas almas corrompidas da Lua que se extinguiu para todo o sempre.

E foi assim que o 3º planeta, durante eras e mais eras existiu, até que todos se esqueceram o porque de toda aquela destruição ou quando ela começou. Há tempos, os homens pararam de contar os dias, meses e anos. Somente as chagas e marcas de guerra podiam dizer a idade de um homem ou sua experiência. Ninguém daquele tempo conheceu os dias de luz, as árvores verdes ou os rios cristalinos que cediam lar a outras formas de vida. A terra cinza e fétida era o berço de toda a vida que insistia em nascer. A guerra já existia no coração de cada criança que nascia. Elas desconheciam o motivo de seus fardos de luta.

Isolado dos sobreviventes, um velho ermitão vagava entre as matas esquecidas e visitava as cidades daqueles arredores para contar essa triste história. Este homem pertencia a uma antiga estirpe de sábios que sobreviveu a várias gerações de conflitos e batalhas, desde o início de toda aquela guerra. Segundo o que poucos sabiam, o velho era portador de estranhos pergaminhos, achados em uma cripta dos antigos habitantes das cidades destruídas. Suas profecias e lições, as histórias de seus ancestrais e o conhecimento dos inúmeros livros, sujos e despedaçados pelo tempo, permitiram que o pouco que se restou da história não se perdesse pelo tempo.

O andarilho profetizava a chegada de um jovem Espírito que desconhecia a escuridão. Filho do Crepúsculo e cheio de coragem, munido de beleza e poder, que cavalgaria até o 3º mundo para devolver aos homens a centelha da vida, o calor do sol e o brilho da lua que não mais existia.

Aos gritos e lágrimas, o sábio homem atacava com fúria os incrédulos e zombeteiros, dizendo aos quatro cantos que somente a fé construiria a porta para o Espírito alcançar este mundo. Muitos não acreditaram, zombaram da sabedoria do velho homem insistentemente. Parecia incoerente ou distante para as pessoas, a possibilidade de um velho tolo e as profecias de seus livros podres serem a única salvação para a humanidade.

Contava o velho para o povo de uma pequena vila, que a Lua, antes de deixar os céus quase sem nenhuma força, deu para a humanidade uma última esperança. Fez surgir um espírito poderoso e sábio, nascido no último crepúsculo do último dia de calmaria, que devolveria ao mundo os dias de luz e paz dos tempos antigos. Segundo as velhas escrituras, este espírito somente se manifestaria no mundo quando a esperança reinasse novamente entre os homens no lugar do ódio, da Inveja e da Discórdia plantadas em seus corações.

Cansado e doente, mais uma vez o velho retornou para as matas e se sentou na grande pedra, para mais uma vez olhar para o céu, como fazia em todas as noites desde que encontrou os livros. Procurava os pontos brilhantes que habitaram as noites dos tempos antigos e que agora, só habitavam as figuras daquelas páginas sujas. Procurava a lua, grande e imponente lua que nunca iluminou seu rosto e nunca transformou as águas em espelho. Nem mesmo seus ancestrais contemplaram tamanha beleza. Desejando a lua, ele sorriu junto às lágrimas e gritou para o vento clamando pelo fim de sua agonia, o retorno do Sol, o amor no coração das crianças.

Ali, no frio da noite, o ermitão adormeceu profundamente, abraçado ao seu velho tesouro. Cansado do mundo, das pessoas, do frio e da saudade do grande sol. Saudade da lua que ele nunca viu brilhar.

Mais uma vez, aquele homem sonhou com a fantasia do antigo mundo. Tocou o céu azul com as mãos e abraçou o chão úmido e verde. Sentiu no rosto as gotículas das águas da cachoeira que colidiam com as rochas. Pássaros de todas as cores e espécies, coloriam o céu e as árvores. Infinitos pomares se erguiam até a linha do horizonte que concebia o Sol, esquentando seu corpo como outrora, nos sonhos das noites que se passaram durante toda sua infeliz existência. Ali terminou seu sono e sua fantasia, como se outra vez perdesse uma batalha contra sua própria mente.

Por onde anda o Jovem espírito, que deseja a esperança renascida nos homens para novamente surgir? Como plantar a esperança no coração de crianças que não brincam nem sonham com o futuro? Só havia perguntas, incertezas e ceticismo nas pessoas. O mal prevalecia nas cidades, nos lares e nos homens. Não havia aliados. Duas guerras naquele mundo se mantinham constantemente. No céu e na mente do homem.

No dia seguinte, o velho decidiu não voltar mais às cidades e iniciou uma jornada em busca de respostas, caminhando para o leste, enfrentando o medo daqueles vales inóspitos e poluídos. As grandes montanhas se situavam no extremo leste, passando pela grande metrópole fantasma. Por longos meses ele caminhou e visitou locais há muito tempo desabitados por qualquer forma de vida. Sumiu no horizonte, perdeu-se pelo mundo, foi engolido pelo leste que concebia o sol vermelho e frio.

E foi assim que nunca mais se teve notícia daquele profeta e suas histórias. Sua caminhada em busca da verdade se perdeu nos caminhos tortuosos do desconhecido. Suas palavras de fé e esperança nunca mais foram ouvidas por ninguém. Não houve buscas para encontrar o ermitão que havia se perdido no leste...

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................Me perco entre minhas palavras quando me dou conta de que sou sobrevivente de tamanha catástrofe que destruiu nossa mãe Terra. Nascido neste confinamento frio e solitário, tão alto e esquecido, sem saber o que é pisar em solo natural, fico olhando para baixo, observando de longe aquela grande esfera cinzenta, imaginando personagens, almas, espíritos, ermitões e guerras pagãs.

Sinto a sensação de que nossos irmãos do passado são perdoados da culpa pela morte de nosso planeta, quando em minha história transformo a última e grande guerra em batalhas entre corpos celestes. Quando transformo o inverno nuclear em um castigo do sol, quando imagino um velho homem que sonha com a esperança de um mundo melhor, quando todo o pecado e maus pensamentos são oriundos de uma alma descontente, e não de nossos corações.

Tiro o peso de nossas costas ao contar que a Lua foi banida pela ira do Sol, pois é difícil aceitar a verdade de que sua extinção foi por culpa da imprudência do homem. Há tantos séculos atrás, pisamos pela primeira vez em seu solo. Voltamos muitas e muitas vezes depois, escavamos, exploramos, construímos fortalezas e muralhas em sua superfície, superlotamos e destruímos. Hoje vagam pela órbita os fragmentos de nosso único satélite.

O Sol vermelho e frio que imaginei existe de fato. É a visão que se tem dele por debaixo das densas nuvens de poeira. Aqui em cima ele continua forte, imponente e radiante. Mas continua sendo uma ameaça constante, um inimigo que nunca se põe, que nunca se recolhe.

O antigo Espírito desta minha história não voltou, o de minha realidade também não. Ainda somos julgados em vida em torno de toda essa destruição e tristeza. O que promete aquele antigo e famoso pergaminho, que ainda existe após tantos séculos, ainda não aconteceu.

Tudo que está escrito nestas pequenas páginas é uma amostra de toda minha tristeza e arrependimento, que carrego pelos irmãos mortos no passado e pelos irmãos que ainda não aprenderam a respeitar a vida e a natureza. Sim, me arrependo pelos que tiveram que guerriar pelas águas, pelas terras, pelo verde, pela Lua. Me arrependo por ter nascido nesta época, por viver agora, e por morrer aqui tão longe de minha casa.

Deixo para os arrependidos e inconformados essa história, essas palavras... Que o próximo seja mais forte que eu,,, que lute pela volta de tempos felizes, em que todos saberão respeitar a natureza, os irmãos e a si mesmo...


Estação espacial Templaris, 23 de janeiro de 2520...

... Diário de um soldado anônimo e arrependido.
Thiago Fontes de Faria
Enviado por Thiago Fontes de Faria em 02/03/2006
Código do texto: T117997
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Sobre o autor
Thiago Fontes de Faria
Itabira - Minas Gerais - Brasil, 37 anos
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Thiago Fontes de Faria