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Uma mulher inesquecível

        Quando fomos para o hospital da cidade vizinha, a obstetra era de lá, para a minha esposa dar a luz à nossa pequena Sther, nasceram mais quatro bebês entre aquele dia e o dia anterior.  Dependendo de quem ler esse texto pode até achar pouco, mas para a nossa região é bastante.   Era mudança de lua, o senso comum diz que nascem mais crianças nesse período, os estudiosos dizem que não tem nada a ver, mas o importante é que nesse caso o senso comum venceu,  pois tem dias que não nasce ninguém. Havia um quarto em que tinha três mães com seus respectivos filhos e tive a oportunidade de ver todos, constatando que recém nascido não são uns iguais aos outros, como eu acreditava. Acho que todos sabem mas é bom reafirmar que é só em novela que a mocinha sente as contrações num lugar ermo e minutos depois dá a luz sozinha, ou na melhor das hipóteses aparece o mocinho. Na vida real o trabalho de parto dura horas, as vezes muitas.  Então cada vez que a minha esposa ia fazer os exames para ver a dilatação eu ia dar uma olhada nos outros bebês, por xereta mesmo, e ao mesmo tempo  tentando fazer uma projeção de como seria a minha filha que estava para nascer. 
        Tinha mães acompanhadas com suas mães, irmãos, pais e maridos, mas chamou-me atenção uma mulher que estava só.  Seu filho havia nascido no dia anterior, de parto normal e ela iria para casa, ou pelo menos sairia do hospital, naquele dia. Era uma mulher de cabelos claros, baixa estatura, ao meu ver era bonita, todas as mães são bonitas.  Não sei precisar sua idade, poderia ter 16 como 26 anos.  A cada xeretada que eu dava naquele quarto, sempre haviam pessoas visitando os dois outros bebês e ela sempre só e, por ironia do destino, ficava separada de todos os outros pois a porta era no meio do cômodo, sendo duas camas para a esquerda e duas para a direita.  As duas outras mães estavam para a esquerda e ela numa cama da direita, sendo que a outra cama estava vaga.  No lado esquerdo sempre aquele alarido festejando os bebês e no lado direito apenas aquela jovem mãe com seu neném.  Eu sempre ia ver seu filho e comentava algo gentil, ou bobo, sei lá, mas esperava que ela se sentisse menos abandonada.
        Seria um caso de partenogênese, ela teria auto fecundado e dado a luz?  O que é possível, afinal a minha esposa pariu uma menininha que é a fuça dela, não tem nada meu.  Ou aquela criança teria pai, ela teria dormido com o cara errado e ele a abandonou ao sabê-la grávida?  Seus pais estariam mortos ou a teriam abandonado à própria sorte por ter dormido com o cara errado?  Essa pobre menina também não teria um amigo, um colega de quarto, um conhecido?  Ninguém parecia se importar com a moça, isolada no seu lado direito do quarto.  Por mais fortes e auto-suficientes que alguém seja, tem momentos em que as pessoas são mais frágeis e sensíveis que o normal e um momento desses, na mulher, seria a maternidade. Até acredito que atendimento tenha sido excelente e por bons profissionais, mas seria importante o apoio de um familiar ou amigo.  Pareceu ser uma mulher de poucas posses, estava num alojamento do SUS, breve teria que voltar ao trabalho, acredito que teria um, pois sem ninguém zelando por ela e pela criança ela teria que lutar sozinha. Concluí que a vida daquela mulher não seria fácil e o seu menino teria que ser um guerreiro, assim como sua mãe já estava sendo.
        Depois do meio dia, antes de nascer a minha filha, eu estava passeando pelo corredor, e pela porta entreaberta do cômodo vi essa mulher arrumando a criança e seus pertences para deixar o hospital.  Logo saiu do seu quarto, com uma pequena bolsa e seu filho nos braços, coberto com um tecido leve, caminhando devagar mas parecendo bem.  Desapareceu da minha vista depois que a vi rumar para descer a escada do hospital para sair do prédio.  Lá fora eu creio que ninguém esperava por ela.
Marcos Boca Matos
Enviado por Marcos Boca Matos em 03/03/2006
Código do texto: T118171
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Sobre o autor
Marcos Boca Matos
Tapera - Rio Grande do Sul - Brasil, 45 anos
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Marcos Boca Matos