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A palavra da vez

O Rio de Janeiro é, sem dúvida, uma cidade singular. Sobretudo no esculacho. A cada estação o povo elege uma palavra. Não há campanha. A escolha é feita de modo tácito pelos nativos. O substantivo eleito invade o vocabulário dos cariocas, como um vírus em forma de palavra. Contagia todos, independentemente de classe social, nível de instrução, bairro. O vírus se alastra rapidamente,  extrapola fronteiras geográficas com a força dos tornados.

Usa-se a dita cuja a torto e a direito, até que seu significado original se perca na vulgaridade do uso exaustivo, por vezes mais que indevido. Os exemplos são vários. Atitude, bombar, irado, caído, sinistro, barraco, montado, dominado e por aí vai. Carioca é expert nisso. Faz parte do seu charme. Ninguém nesse país elege palavras com a maestria e non sense cariocas. Talvez, apenas os baianos. Mas esses formam uma nação a parte.

Quando retornei ao Rio, em 2.000, a eleita do momento era a palavra estresse. Por tudo e por nada, com ou sem razão - ao menos, aparente -, estava ela na frase. Dava um toque fashion à bobagem que iria ser proferida. Aliás, carioca, besteirol e fashion são praticamente sinônimos. Dei-me conta disso da forma mais absurda possível. Descobri num sábado nublado, curtindo uma tremenda ressaca, dentro de um supermercado. Óculos escuros para esconder as olheiras, escorada no carrinho de compras, em plena fila do açougue. Sem dormir, a cabeça pesava toneladas. Para tripudiar do meu lamentável estado, a  bateria da Mangueira resolveu instalar-se nela.

Estava praguejando contra a indústria farmacéutica, pois que engovs e similares não fizeram qualquer efeito para amenizar meu martírio, quando uma senhora idosa chamou minha atenção. A minha e a de todos que estavam por perto. Sua imagem, por si só, seria o suficiente para despertar o interesse até dos mais distraídos. Uma figura de Dalí, que escapara das telas do genial  artista para fazer mercado em Copacabana. Quem conhece o bairro já esbarrou com uma dessas figuras. São senhoras entre 70 e 80 anos, cujo figurino congelou no tempo. Estão invariavelmente vestidas com conjuntinhos de linho em tons pastéis.

Parecem fabricadas em série. Todas tem cabelos em tons absurdos de acaju ou cinza azulado. As sombrancelhas, de uma assimetria inacreditável, são riscadas à lápis, num preto retinto. Sem mencionar os batons em todas as tonalidades de vermelho, que nunca se limitam aos contornos dos lábios. Escapolem e desenham bocas inumanas.  Surrealismo puro. Para ser justa, eu mesma estava uma figura lamentável. Mas não de Dalí. Mais para a personagem do cartunista Angeli, uma espécie de Rê Bordosa sem banheira ou um prestativo Juvenal para me socorrer.

Pois essa figura de Dalí - com todo respeito à senhora e ao louco pintor catalão - iniciara, minutos antes, uma conversa com o atendente do açougue. De longe, aparentava ser uma simples troca de informação entre cliente e funcionário. Não acompanhei o princípio do diálogo, estava caída demais para prestar atenção em algo, além dos bumbos e pandeiros que ecoavam em minha cabeça. Sem o alívio prometido pela alopatia, apelara para a sabedoria popular e abrira uma latinha pra "rebater", enquanto aguardava a minha vez.

Em determinado momento, sei lá porque, a dona se alterou. A conversa virou bate-boca, com a acalorada participação dos presentes. Barraco armado, clientes abandoram carrinhos para acompanhar a discussão. A fila do açougue bombou. Não tem algo capaz de seduzir mais um carioca que a possibilidade de apreciar e, se possível participar, de barracos promovidos por terceiros. Até a moça do estande de uma marca de café, largou garrafas térmicas e balcão para assistir aquela cena irada. Para completar o cenário só faltou mesmo um pipoqueiro e uma drag-queen montada.

A confusão nada teria de anormal, em se tratando de supermercado e de Rio de Janeiro. Não fosse a tal senhora e a frase com que encerrou, de forma definitiva, o bate-boca, cujo motivo até hoje desconheço. A frase fez o efeito que engovs e cerveja não conseguiram. Silenciaram de imediato a bateria da Mangueira. Creio que até os repiniques ficaram tão pasmos quanto eu. Cheia de atitude, com as mãos na cintura e autoridade psiquiátrica, a figura de Dalí olhou para o infeliz atendente e chutou o balde:

- Seu problema, meu filho, é que você está muito estressado!

Com toda a dignidade, virou-se e saiu empurrando seu carrinho, sob aplausos e assobios. Tivesse acontecido no verão passado, certamente um gaiato qualquer teria gritado lá detrás: “aí, minha senhora, mandou bem!”. Besteira entrar agora no mérito de quem estava ou não estressado naquele barraco. Já me basta a lembrança infeliz daquela ressaca. Mas foi nesse momento que tive a consciência plena, absoluta: estava de volta ao Rio de Janeiro. Em dialeto carioca, a ficha custou, mas caiu. Sinistro, não?

Ah... Em tempo: alguém pode me dizer qual é a palavra da vez desse verão? Que não seja tsunami, por favor.
Simone Salles
Enviado por Simone Salles em 20/04/2005
Código do texto: T12236
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Sobre a autora
Simone Salles
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil
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