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Se, se, se...

Aboli o "se" do meu vocabulário e da minha vida. "Se" é o imponderável. É tudo aquilo que poderia ser - ou não ser - caso tivéssemos optado por outro caminho, outra decisão, outro gesto, outra resposta, outra pergunta. "Se" é o exercício da fantasia absurda. Delírio especulativo, sem qualquer resultado prático para nossa já confusa existência.

"Se" tivéssemos persistido, teríamos conseguido?" "Se" fôssemos mais pacientes, teríamos compreendido? "Se" optássemos pela generosidade com o outro, teríamos impedido o gesto mesquinho dessa ou daquela pessoa? "Se" é puro lamento e como todo lamento é vão.

É chorar o leite derramado por nós ou por outros. Só que chorar não traz o leite de volta ao copo nem limpa a sujeira provocada pelo descuido. Portanto, inútil. Como inútil é praguejarmos contra o destino - caso acreditemos na inexorabilidade dos fatos da vida - ou nos perdermos em lamentações inconsistentes. Pois que jamais saberemos, com certeza, a conseqüência de atos, gestos ou palavras, que não tivemos, não fizemos, não proferimos.

Perde-se um tempo enorme em lamúrias, autocomiserão. Para quê? Nada. Absolutamente nada. Claro que todos temos direito aos cinco minutos de fama, profetizado por Andy Warhol. E, por tabela - para sermos justos conosco - a cinco minutos de auto-piedade. Faz parte. Somos humanos, creio eu.

Não tenho dúvidas de que a vida seria bem mais fácil, caso esses lamentos e choros resultassem em aprendizado pessoal, crescimento existencial.  Ou lágrimas e queixumes tivessem o poder divino de fazer  ponteiros de relógios caminharem para trás, subvertendo o Tempo. Esse sim, um deus implacável. Mas não. Invariavelmente, não passam de estratagemas, elaborados de forma consciente ou não, para conquistar a simpatia alheia e obter perdões.

Esquecemos que chafurdar no "se" é optar, deliberadamente, pelas areias movediças das neuroses. É cultuarmos a culpa, como redentora de nossas atitudes. O "se" nem mesmo serve como alento. Ao contrário. Ele nos enreda numa miríade de hipóteses - algumas desparatadas, outras nem tanto. Mas todas, sem exceção, irreais. Pura autoflagelação.

Ortega y Gasset, filósofo espanhol do século passado, foi genial ao resumir, numa frase cabal, a impossibilidade de nos dissociarmos dos fatos que nos cercam, do contexto emocional que vivemos:

 - Yo soy yo y mis circunstancias.

Portanto, as decisões tomadas, resultem em supostos erros ou acertos - substantivos tão caros à cultura judaico-cristã; sem citar culpa, esse alçado à condição de ícone -, são aquelas que nos pareceram, naquele exato instante, as únicas apropriadas. Isso vale para todos os nossos atos.  E até para nossas omissões que, em última análise, são também atos, como outros quaisquer. Como então lamentar e lamentarmo-nos?

Nós, humanos, somos seres essencialmente contraditórios e confusos. Custo, porém, a crer que alguém, deliberadamente, tome uma atitude da qual, saiba por antecipação, se arrependerá. A menos que seja totalmente destituído de razão e sensatez. Ou sofra de algum tipo de patologia mental. Mas aí, é caso para Dr. Freud e seus discípulos. E eles são ferozes quando o assunto em pauta é culpa.

O  Homem - machismo idiomático à parte - não é um ser pronto e acabado. Imutável. Imune às paixões e dúvidas próprias à consciência de suas limitações e transitoriedade. De outro modo, estaríamos todos fadados à estagnação. Não. Nós mudamos a cada momento, a cada sentimento, a cada reação nossa diante de obstáculos e oportunidades colocados pela vida em nossos caminhos. Assim, erramos. Assim, acertamos. Assim, aprendemos. Logo, não há tempo perdido. Há tempo desperdiçado, geralmente em conjecturas pueris. Como disse Gasset, "O  Homem não é; é um contínuo vir-a-ser".

Por tudo isso, livrei-me do "se". Quem desejar que o use  e viva permanentemente no condicional. Para mim, mais vale olhar para frente e dizer: dessa vez não agirei assim, não optarei por esse caminho, não cometerei esse gesto, não responderei desse modo, não farei essa pergunta.

O que ficou no passado não pode ser alterado, corrigido. O futuro, dizem, a Deus pertence. A nós, só nos resta o presente. E o presente é hoje, agora. Façamos nossas escolhas, sejam elas quais foram, e sejamos criativos. Somos falíveis, erraremos certamente. Mas que sejam novos erros e não nos lamentemos depois por tê-los cometido. Afinal, somos humanos. Ou não?

Simone Salles
Enviado por Simone Salles em 21/04/2005
Código do texto: T12365
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Sobre a autora
Simone Salles
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil
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