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Por causa de Marguerite Duras

Toda tentativa de explicarmo-nos sempre me parece vã. Ao tentar sintetizar o quê ou quem somos, deixamos à margem, deliberadamente ou não, razões que desconhecemos as razões. Lançamos mão da racionalidade e relegamos a intuição ao confinamento dos pensamentos ilógicos. É assim com o ato de escrever. Por que escrevo? Por que certos humanos não sobrevivem sem a escrita? Como eu, reféns das palavras? Pensei, em certo momento, que era tão-somente uma compulsão da Alma; uma necessidade do Espírito, uma imposição do Ser.
 
Percebo, hoje, que é mais.Transcende, ultrapassa toda e qualquer definição baseada na lógica. Podemos enumerar em frases razoáveis, encadeadas até formar parágrafos - pretensamente esclarecedores -, os motivos que nos levam a escrever. Especularmos, com indagações pueris lançadas ao nada, sobre as cem mil sem razões dessa motivação. Criarmos e fundamentarmos, com argumentos lúcidos, teorias e teses para justificarmos essa condição existencial,  esse vício do qual somos presas. Jamais, porém, conseguiremos definir em toda a sua magnitude, com precisão absoluta e incontestável, essa compulsão que nos mantém cativos. Muito menos resumir quem somos.
 
Divago sobre isso provocada por uma mulher. Uma mulher-escritora. Por Marguerite Duras e seu pensamento: "... Escrever é também não falar. É calar-se. É gritar sem ruído. ...". Remoo essas três frases desde que as li, numa madrugada com sono e excesso de trabalho. Trabalho escrito. Trabalho sobre a escrita. Trabalho sobre trabalhos escritos. O sono foi-se. A concentração desintegrou-se. As frases persistiram. Ressoam em minhas entranhas, como eco de dúvidas e perplexidades a existência - propósitos ou despropósitos?. Apenas três frases. Três afirmações. Três enigmas para mim.
 
Será que, como eu, ela é uma mulher açoitada por dúvidas, órfã de certezas e opiniões absolutas? Será, como eu, uma mulher atormentada, só perplexidade diante de tudo e todos? Alguém que abdicou cedo demais das expectativas? Ou que cedo demais foi soterrada pelo absurdo da realidade vivida?  Tento digerir, extrair delas toda sua essência. Absorver, gota por gota, o significado de cada palavra, cada frase. Consigo apreender certo sentido - provavelmente diverso do que ela tencionou dar - em cada frase separadamente.
 
"... Escrever é também não falar. É calar-se..."  Quando escrevo é o meu silêncio quem diz. Pois que emudeci há tempos. Se sou obrigada a falar, falo. Mas não digo. E se sou obrigada a dizer, faço-o como ventríloqua de mim mesma. "... É gritar sem ruído. ..." Sim, fazemos isso. Todo o tempo. Gritamos o desespero das perguntas sem respostas.  Debatemo-nos na busca de razão para o que vemos e compreensão para o que não vemos. Buscamos sentido nas coisas inexplicáveis e coerência no incompreensível. Exaustos, clamamos por um pouco de paz. Alguns segundos de trégua nessa batalha feroz que travamos internamente. E é nesse momento que a escrita surge.
 
Sinto que ao escrever, exorcizamos nossos demônios e acalentamos nossos anjos. Pela catarse das palavras, por alguns instantes, libertamo-nos  de nossos fantasmas. Afugentamos temores. Resgatamos lembranças. Concretizamos sonhos. Equilibristas da Vida, isso é o que somos. Só isso. Nada mais. Deslizamos pelo frágil arame da sanidade, tensionado sobre o abismo dos delírios, das paixões, dos desejos. Descobrimo-nos, então, habitantes de um mundo singular. Onírico. Lisérgico. Real em sua irrealidade.
 
Nele, conceitos e normas inexistem. Tudo é vago e incerto. Existimos noutra dimensão, onde não há estradas, só descaminhos. Não há tempo nem espaço. Não há lucidez ou loucura. Levitamos no emaranhado de idéias e sensações. Sem amarras. Sem fronteiras. Sem limitações.  Sem disfarces. Sem dissimulações. Sem adornos. Expomo-nos, despidos e desarmados. Frágeis. Vulneráveis. Nesse lugar de subversão, estamos pemanentemente nus. Nus diante de nós mesmo. Nus diante de todos. Nus diante disso que chamam vida. Mas são apenas instantes de fuga. Logo somos sugados de volta ao mundo de cá. E recomeça a busca interminável por respostas que não vêm.
 
As perguntas tornam-se uma cantilena. Monótona. Intermitente. As indagações permanecem: "É isso?!" "É por isso?!" Se há respostas, elas se negam a mim. Não sei hoje. Não espero saber amanhã. Talvez, somentepossamos vislumbrá-las nos instantes finais de transição entre vida e morte. E, se assim for, mesmo assim, não terá sido tarde demais.




Simone Salles
Enviado por Simone Salles em 22/04/2005
Código do texto: T12450
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Sobre a autora
Simone Salles
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil
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