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Gato que nasce em forno é pão?

Reza a lenda que todo baiano é preguiçoso. Que baiano não nasce, estréia. Que não trabalha, pendura paletó. Que só doa sangue porque isso lhe rende, na repartição, folga remunerada e adjetivo de solidário. Folclore à parte, não se passa um dia na Bahia sem que haja alguma festa, no interior ou na capital. Pode-se pular carnaval durante todo o ano - exceção somente para os 10 dias do São João, quando o ritmo muda de axé-music para forró muderno.
   
Não há descanso para os que gostam do abadá: basta montar um calendário com todas as festas de largo, lavagens de escadarias, becos, travessas, ladeiras, estátuas - e o que mais o zelo pela higiene e a criatividade do povo inventar - e as micaretas das cidades do interior. Escrevo sem preconceitos. Ao contrário. Guardo verdadeira admiração por essa peculiaridade.

Mas há baianos que não só discordam desse atributo como se sentem ofendidos com a pecha de festeiros e preguiçosos. E comemoram efusivamente qualquer declaração (de procedência supostamente qualificada), estudo ou tese que afirme o contrário. Foi numa dessas que recebi de uma prima, por mail, notícia que fez tremendo sucesso no estado e ganhou as manchetes dos jornais de Salvador: “PREGUIÇA BAIANA DÁ DOUTORADO À PAULISTA”.

Claro que a prima em questão é baiana. Como são todos os meus parentes, sejam eles por parte de pai ou de mãe. E, só como adendo, acrescento que ela, a prima, é integrante aguerrida do grupo de resistência formado por baianos indignados com a má fama - imerecida, garantem -, atribuída aos que nascem na Bahia. São uma espécie de partisans de uma Bahia ocupada por cultura alienígena, vinda sabe-se lá de onde. Talvez da África, com escala no Caribe.

Bahia de Todos os Santos. Bahia de Todos os Orixás. Onde Nosso Senhor do Bonfim anda de braços dados com Oxalá, Santa Bárbara e Yansã são comadres, Ogum e Santo Antônio irmãos e Salvador é d'Oxum.  Ou seria, cá para nós, República Malemolente da Bahia - um Estado independente e semi-anárquico, mais para Jamaica que para Brasil, incrustado entre os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Sergipe, Pernambuco, Piauí, Tocantins e Goiás? Governado ainda (direta e indiretamente) por um vice-rei, cuja alcunha é Toninho Malvadeza e, mesmo assim, capaz de produzir talentos em profusão em todas as áreas da Cultura?

De volta à tese, defendida por uma professora de antropologia de uma universidade católica de Campinas, São Paulo. Omito aqui os nomes da doutora e da universidade por questões éticas e de elegância.

Em seu trabalho, a doutora sustenta que o baiano é muitas vezes mais eficiente que o trabalhador das outras regiões do Brasil e contesta a visão de que os nativos do estado, especialmente os da capital, vivem em "clima de festa eterna (sic)". A tal preguiça baiana é-seria uma faceta do racismo herdado dos tempos da colonização, que se consolidou ao longo dos séculos. Dedução primorosa.

A tese torna-se curiosa não pela constatação de que os baianos trabalham. Muito menos pelo sentimento de desagravo sentido pela prima ao saber que uma paulista – legítima representante do Sul Maravilha, como diria Henfil - e sua tese de doutorado isentam a ela e a todos seus conterrâneos do defeito moral da indolência. Ela é curiosa pela absoluta obviedade de suas conclusões. Ora, aplausos para o óbvio ululante, também diria Nelson Rodrigues, se vivo estivesse.

É certo que em algum momento, entre o carnaval oficial, festas de largo, lavagens de qualquer coisa, micaretas e São João, os baianos trabalham. Até o momento, não há notícia de que por lá o Real esteja brotando em árvores ou sendo puxado em arrastões nos rios ou mar. Milagres têm limites, até na Bahia. Coisas dos deuses sem deus?  Quem sabe...

Ela garante também que, nas festas, quem se diverte são os turistas, cabendo ao povo da terra a tarefa árdua de servi-los. Quer dizer, o baiano trabalha para que os turistas se divirtam. Em outras palavras. Aquela multidão, formada por milhões de pessoas pulando nos blocos ou como pipocas atrás dos trios elétricos, é composta unicamente por alienígenas. É de pasmar qualquer vivente, cujos neurônios funcionem regularmente.

A  professora doutora gastou, nada menos que quatro anos de pesquisas históricas, para chegar a mais que surpreendente conclusão: "essa imagem (a de preguiçosos) derivou do discurso discriminatório contra os negros e mestiços, que são cerca de 79% da população da Bahia". Admito: não fosse ridícula, seria uma tese cômico-absurda, digna de Ionesco.

Sinto-me totalmente à vontade para tecer comentários sobre o assunto - sem tese de doutorado, é verdade, mas com mestrado conferido pela vivência e pela genética. Filha de baianos, nasci na cidade do Rio de Janeiro. Passei, porém, todas as férias escolares em Salvador e no interior da Bahia, onde morei por seis meses. Fui criada em pleno Rio com valores baianos, sotaque baiano e malemolência baiana.

Há que se fazer aqui ressalva sobre um detalhe, aparentemente esquecido pela doutora: há diferenças sim entre os baianos do Recôncavo e os do Sertão. Mas por razões diversas, antagônicas até, conservam em comum a característica que tanta polêmica provoca: essa ausência de pressa que, a nós do sul, parece  inexplicável, quase indecente. Uma afronta à nossa vida corrida, controlada por horários e compromissos sempre inadiáveis.

Mesmo pecando pela repetição, não cometerei a imprudência de escrever novamente preguiça nesse comentário. Deus é mais! Não se brinca com os brios dos parentes, principalmente baianos - pior, sertanejos. As coisas por lá são resolvidas no trabuco ou na armada solta*. Acreditem: é perigosíssimo!

Se os baianos em questão forem sertanejos (como são os meus), tremam. Se forem do Recôncavo, o perigo não diminui. Só demora um pouco mais. Porque, primeiro, eles precisam aquecer os músculos e os ânimos numa roda de capoeira. Depois, sentar numa birosca, comer uns dois acarajés quentes para dar sustança e tomar todas, acompanhadas de um caldo de sururu p’ra rebater, enquanto contam em detalhes o que farão - caso consigam, evidentemente, levantar do tamborete.

Já os sertanejos precisam só afiar bem, mas muito bem mesmo, a peixeira. Ou limpar bem, mas muito bem mesmo, o trabuco. Aí é enfiar o chapéu de couro na cabeça, passar na venda do seu Zé, tomar umas branquinhas, dar umas cusparadas no chão (depois de coçar o saco e de pitar um cigarrinho de palha feito me-ti-cu-lo-sa-men-te na hora) e, piedosamente, invocar para a vítima a proteção do Padim Ciço - que nem baiano é. E isso também leva tempo. Muito tempo. Baiano acredita piamente que castigo, divino ou terreno, vem em lombo de jegue. Cavalo é rápido demais.
 
Melhor seria que a professora doutora paulista, com todo o respeito, fizesse bom uso de seu tempo e desenvolvesse um estudo sobre a baianidade -  esse estado de espírito que iguala todos os baianos, sejam eles da capital ou do interior, do Recôncavo ou do Sertão, negros, mestiços ou brancos. Algo que desvendasse o segredo que o povo da Bahia guarda ao longo dos séculos: como conciliar trabalho e festa 365 dias por ano. E, ainda assim, sobreviver!

Jorge Amado com seus livros aguçou-nos a curiosidade. Caymmi, na sua rede e seu contemplativo amor pelo mar, espicaçou-nos ainda mais a fantasia. Sem falar em Caetano, Gil, Tom Zé, Gal, Bethânia, Novos Baianos, entre tantos nomes da Tropicália. Agora está aí o espetacular João Ubaldo Ribeiro, com seus chinelos, seus bermudões e sua total incompatibilidade com a informática para ratificar os conterrâneos, ilustres ou anônimos.

Mais baiano que João Ubaldo, impossível. E é o próprio, por meio das personagens, nem tão fictícias assim, da Ilha de Itaparica, que deixa escapar: por que fazer agora o que se pode fazer depois? Por que fazer hoje, se podemos deixar para depois de amanhã? E não adianta baiano espernear, porque é desjeitimmes, como diria um vizinho mineiro –também nada chegado à pressa. Jorge Amado já decretou: só é possível viver em dois lugares no planeta, França e Bahia. Caetano resumiu: é só um “jeito de corpo”. Os nativos explicam: é pura alegria de viver. Sobre isso sim, qualquer tese mereceria aplausos.

E, de quebra, me ajudaria a resolver uma questão que nenhum dos meus psicanalistas, a quem ajudei a enriquecer nas últimas décadas, conseguiu encontrar resposta. Sou carioca da gema, flamenguista, portelense. Freqüento o Bracha** depois da praia, participo das rodas de jongo na Serrinha***, tomo chope nos botecos da Lapa e ainda vou a Estudantina****. Mas o sangue bom que corre em minhas veias, excetuando o percentual das transfusões, é pura baianidade. Daí minha dúvida existencial:

 - Gato que nasce em forno é pão?

Notas do autor:
* Um dos golpes mais difíceis da Capoeira de Angola.
** Bracharense, tradicional bar carioca, localizado no Leblon, ponto de encontro dos descolados depois da praia e da turma boêmia.
*** Morro carioca, berço de uma das grandes escolas de samba do Rio, a Império Serrano, onde ainda se dança o jongo - ritmo típico trazido para o Brasil pelos negros.
**** Outro ponto tradicional, uma das mais famosas gafieiras cariocas.
Simone Salles
Enviado por Simone Salles em 22/04/2005
Código do texto: T12451
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Sobre a autora
Simone Salles
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil
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