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Poetas são Anjos

" ... Somos anjos perdidos.
Asas mortas no chão.
Desde a primeira audição
da palavra
            impossível. ..."
 (Tudo pelos ares, Flávio Rocha)

Poetas são anjos. Isso mesmo, anjos. Espíritos de pura Luz, disfarçados em pessoas e enviados por Deus à Terra com uma divina missão:  permitir aos humanos vislumbrar em vida um cadinho das belezas e maravilhas do paraíso. Porque poetas, definitivamente, não podem ser simples mortais. Nem mesmo humanos especiais, abençoados por Ele, com o dom de traduzir em versos todas as paixões dessa efêmera e conturbada existência humana.

Não. Decididamente não. Poeta é mais, é muito, é o sublime elevado à enésima potência. Poeta não é substantivo. É adjetivo superlativo absoluto sintético. Pois que Verbo, só Ele. Como imaginar, por exemplo, que Fernando Pessoa ou Carlos Drummond de Andrade tenham sido apenas gente de carne e osso, coração e alma, como nós? Impossível. Defeitos, manias, inperfeições, claro que eles tinham como todos os Poetas os têm. Faz parte do disfarce.

Um mortal jamais escreveria: "... Que pode uma criatura senão,/entre criaturas, amar?/Amar e esquecer/Amar e malamar/ Amar, desamar, amar?/Sempre, e até de olhos vidrados, amar ...", como Drumond  em "Amar...". Muito menos "..."Não se vá por um minuto/porque nesse minuto terás ido tão longe/que eu cruzarei toda a terra perguntando/se voltarás ou se me deixarás morrendo ..." como fez Neruda.  Ou ainda "... Não sou nada/Nunca serei nada./À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo ...", escrito por Pessoa ao sintetizar-se em "Tabacaria", sob um de seus muitos heterônimos, Álvaro de Campos.

Ao contrário do que julgava ser, Pessoa foi Tudo. Como Carlos Drummond de Andrade foi Tudo. O que dizer, então, de William Shakespeare, Cecília Meirelles, Garcia Lorca, Mário Quintana, Florbela Espanca, Bertold Brecht, Luiz de Camões, Lord Byron, Clarice Lispector, Victor Hugo, Jonh Donne, Adélia Prado, Chales Baudeleraire, Castro Alvez,  Walt Withman,  Miriam Elim, James Joyce, Thiago de Mello,Rainer Maria Rilke, Zaynab Al-Ghazalli, Manoel Bandeira, Jorge Luiz Borge, Cora Coralina, só para citar alguns? A lista é infindável!

Célebre ou não, Poeta é Tudo. Assim, escrito em maiúsculas. Ah... E destituído de gênero. Não há masculino ou feminino - o poeta ou a poetisa. Poeta é Poeta. Acaso anjo tem sexo? Pois então. Não importa onde tenha nascido, em que parte do globo veio ao mundo. Poeta não é desse ou daquele estado ou província, não pertence a um ou outro país. É transnacional, patrimônio nosso, da humanidade. Já explicou outro anjo-poeta, Caetano Veloso: "... A Pátria é minha lingua ...". Os patrioteiros de plantão que me perdoem, mas, nesse caso, a globalidade é fundamental. Afirmo isso com toda a convicção. E sei que o anjo Vinícius de Moraes me perdoaria a homenagem em forma de plágio.

Há outros aspectos divinos que, aos mais atentos, não passam despercebidos. Poeta independe de classe social, nível de instrução, educação formal, quantidade de informação apreendida ou cultura amealhada ao longo dos anos. Eles surgem de todas as partes, emergem de todos os lugares. Sejam megalópoles ou pequenas aldeias. Por vezes, nem isso: de cantos esquecidos no meio de lugar nenhum.

Quer exemplos? Vamos a eles. O bardo, Willian Shakespeare, nasceu numa província perdida nos campos ingleses, chamada Stratford-on-Avon. Mudou-se para Londres e tornou-se o mais célebre dos Poetas e escritores de todos os tempos. Isso em meados do século XVI. Outro: o cordelista Patativa do Assaré. Nascido Antônio Gonçalves da Silva, em março de 1.909, num pedaço de terra em Assaré, no Sul do Ceará. Analfabeto, hoje é estudado na vetusta Sorbonne, cadeira de Literatura Popular Univeresal.

Não está convencido(a). Mais um exemplo: Cora Coralina, Aninha da Ponte Larga como era chamada em Goiás Velho (primeira capital de Goiás), onde nasceu em 1889. Instrução: primária. Profissão: doceira. Só publicou seu primeiro livro aos 75 anos. Só ficou famosa aos 90, pelas mãos e olhos de Drummond, que era funcionário público de profissão.

As pessoas nascem Poetas. E pronto. Alguém já ouviu falar em alguma faculdade destinada a formar Poetas?  Bastaria ser um aluno aplicado e razoavelmente inteligente, passar no vestibular ou ser aprovado pelo Enen e, após x anos, colocar o canudo debaixo do braço. Profissão: poeta. Registro no Ministério do Trabalho, carteira assinada, férias anuais, décimo terceiro, fundo de garantia, aposentadoria por tempo de serviço, sindicato da categoria. Ou seja, todos os direitos assegurados aos trabalhadores mortais pela Constituição e pela Consolidação das Leis Trabalhista.  Tem dó!

Dá para imaginar uma greve de poetas? Todos eles gritando em uníssono, daqui e de além-túmulo, palavras de ordem tipo "poetas unidos jamais serão vencidos"? Ou fazendo piquetes nas portas de editoras, bibliotecas e livrarias, reivindicando melhores salários e condições de trabalho mais justas? Como seria, então, a decretação de um "estado de greve"? Ou a realização de uma "operação tartaruga" deflagrada pelos poetas diplomados? Inconcebível. Minha imaginação é fértil, mas não chega a tanto.

Ser Poeta é coisa que não se aprende em academia. A não ser Divina, criada com a aprovação Dele, registrada por São Pedro, aulas ministradas por Francisco de Assis, Sidartha Gautama, Tomáz de Aquino, Confúcio, Agostinho, Lao Tsé, Thereza de Calcutá, Luther King, Nelson Mandela - entre outros mestres - e estabelecida num dos sete planos do Éter. Poetas são mesmo anjos disfarçados. Alguém duvida?

                                                    "... Eu canto porque o instante existe
                                                               e a minha vida está completa.
                                                              Não sou alegre nem sou triste:
                                                                                   Sou poeta.  ..."

                                                                 (Motivo, Cecília Meirelles)
 
                                                       


Simone Salles
Enviado por Simone Salles em 22/04/2005
Código do texto: T12452
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Sobre a autora
Simone Salles
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil
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