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Casamento, amor e adultério: uma invenção cultural



Casamento era uma coisa e amor outra coisa, até que a Igreja os uniu na cultura ocidental cristã. Casamento, historicamente, sempre foi uma aliança material: assegurar ou evitar guerras. Já o amor, é a roupagem social da natureza biológica. Quem juntou casamento com amor foi a Igreja e, por isso, a união nunca deu completamente certo.

Remeto os leitores ao livro Repressão Sexual, de Marilena Chaui (Editora Brasiliense, págs. 88 a 141). Demostra ela como o casamento monogâmico foi instituído como sacramento pela Igreja em fins do século 13, após estabelecer o controle sobre a sociedade e sobre as alianças da nobreza. A Igreja controlava tudo: com quem quer casar, os dotes, os esponsalícios, a estabilidade ou não do casamento com fins de herança.
Toda pedagogia cristã se baseia na origem da “queda do paraíso”: a punição do pecado teria de ser paga com castidade, com sublimação do amor profano em amor divino. A opressão da mulher é norma no cristianismo, inclusive pelas declarações de St. Agostinho, S. Paulo, S Tomás de Aquino: a mulher foi a responsável pela “queda” de Adão, veio de uma costela de Adão, tornou-se inimiga da serpente, enfim, perigosa e sedutora.
Foi a influência do apóstolo Paulo que levou a igreja a aceitar o casamento como “remédio” contra o pecado, a luxúria e a prevaricação. Os primeiros padres, Gregório de Nilza, Graciano e outros viam o casamento com desprezo.
Portanto, casamento nunca foi divino, nem eterno, nem indissolúvel. Basta consultar os atlas Antropológicos de Murdoch, de Ford e Bearch, ou estudar a história das civilizações, onde se encontram várias formas de casamento diretamente ligadas à produção (agrícola, pastoril, comunitária etc.)
Com o controle sobre a sociedade, sobre os casamentos, a Igreja estabeleceu o domínio sobre a sexualidade, especialmente com os confessionários. O casamento era “permitido”, segundo S. Paulo, desde que realizado com o consentimento dos noivos, dentro da Igreja (antes era realizados nos castelos pelos senhores feudais) e com uma condição fundamental: o sexo tinha se ser “honesto”, unicamente para procriação, sem luxuria e sem prazer. Mulher, pensar em orgasmo, para Igreja Católica, até a renascença, jamais.
Por outro lado, o amor romântico, esse superlativo do afeto, antes desconhecido, iniciou-se na França, segundo Edgard Gregersen – História da sexualidade humana, Ed. Roca, págs. 288, - ligado ao cavalheirismo, à cavalaria, ao feudalismo e aos menestréis, que realizavam trovas e canções em homenagem à mulher inacessível. O amor romântico surgiu para a mulher do outro...
Somente em fins do século 19 a Igreja uniu amor e casamento na monogamia. A desgraça estava feita. Tinha ela necessidade de controlar a família, vista como autoritária e símbolo de opressão do Estado pelos movimentos socialistas emergentes.
Os gregos, por exemplo, desfrutavam de três tipos de mulheres: as esposas, de pouco valor, com finalidade de transmitir a herança; as hetaíras, para divertimento; e as concubinas, para a prática do amor.
Portanto, o fato de uma pessoa acreditar que está se "casando por amor" não invalida a história da humanidade.
Na Santa Ignorância, afirmamos que a virgindade é coisa sagrada, quando, de fato, foi instituída pela opressão dos homens para haver certeza do primogênito na transmissão da herança.
Posso falar, romanticamente, com lágrimas nos olhos de emoção, que o adultério é pecado contra Deus, quando, na história dos homens, ele foi instituído especialmente contra as mulheres para evitar a participação do filho bastardo nos bens familiares. Prova disto é que as leis romanas - Lex Julia de Adulteriis e Lex julia de Maritandiis - só puniam as mulheres da aristocracia. A plebe romana transava sem restrições no Direito Público.
Por exemplo: pesquisa de Rose Marie Muraro ("Os seis dias em que fui homem") mostra que homens e mulheres das elites brasileiras são os que mais adulteram e menos se separam com medo de perder seus privilégios.
Quem mais se casa e se descasa, como quem troca de roupa, é a classe média liberal (artistas, intelectuais, médicos, engenheiros, advogados etc.), justamente esse "exército de reserva da burguesia" – mais livre e menos comprometido com as relações de produção.
Na realidade, casamento monogâmico-patriarcal, adultério e prostituição constituem um triunvirato perfeito de contradições e hipocrisias. Um interdepende do outro, de tal forma que, unidos, asseguram a sobrevivência da falsa moralidade burguesa.

Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 22/03/2006
Código do texto: T126800
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais