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MUNDO SELVAGEM

Sem compromissos depois do trabalho, o homem foi direto para casa. Chegou cedo e pensou em relaxar um pouco antes do jantar. No momento em que guardava suas coisas no criado mudo, avistou no canto da parede, na copa, quase no teto, um grilo verde. "Josias!" - batizou rapidamente. Tinha essa estranha mania de dar nome aos insetos da casa. Um grilo é um grilo e um grilo é inofensivo. Com aproximadamente três ou quatro centímetros e descansando a vários metros da sua cama, concluiu que Josias não oferecia perigo. "Deixa ele aí...".

O homem relaxou, tomou um banho e jantou demoradamente. Josias lá, impassível. Não incomodava e não emitia ruídos. Aliás, essa foi uma das condições para deixar o simpático Josias aproveitar o prazer da sua companhia: "Ok. Pode ficar por aqui. Mas sem ficar cricrilando durante a madrugada!" Divertiu-se em imaginar se a palavra "cricrilando" realmente existia. Deu de ombros. Tudo era calma e tranqüilidade. Assistiu a um filme na sala e, de vez em quando, olhava para Josias para se certificar de que ele continuava por ali. "Grande Josias...".

Resolveu ir para cama. Já era tarde e o sono já estava batendo. Foi até a cozinha beber um copo d'água, já bem sonolento. Foi nesse momento que o homem enxergou a aranha. "Matilde!"  Não conseguiu imaginar um nome melhor. Seu sono rapidamente desapareceu. Não gostava de aranhas. Aliás, ele tinha um trato com elas: "Não apareçam e continuem vivas. Quem aparecer, vai morrer!" - havia anunciado em voz alta em todos os cômodos da casa meses antes, após haver travado uma luta feroz com uma delas, a Sofia.

"Matilde, não adianta alegar desconhecimento da lei. Apareceu? Vai morrer!"  Foi quando se deu conta de que o motivo dela estar tão à mostra era justamente o Josias. O pobre grilo, com suas pernas apetitosas e saradas e a sua cor verde, indicando carne fresca, certamente seria o prato principal no jantar de Matilde. "Ah não! O Josias você não vai comer!" - falou com a voz firme. Mas Matilde pareceu não se incomodar com a declaração ameaçadora e começou uma marcha lenta, movimentando com graça suas oito patas em direção a Josias, que parecia não se dar conta do perigo real e eminente. O homem pegou a vassoura, velha arma de guerra, e voltou para a copa disposto a acabar com a vida da peçonhenta.

Foi uma batalha atroz. Matilde, assustada ante o ataque covarde e sem aviso, tentava correr pela parede, já sem muito interesse no Josias e muito mais interessada em salvar a própria pele escura e, em alguns pontos, peluda. "Volta aqui, desgraçada!"  O homem lançou vassouradas com força em várias partes da parede até abrir um buraco no reboco, perto da janela. E foi justamente nesse momento que Matilde viu sua chance de sobrevivência. Num último esforço, correu o mais rápido que pode e escapou pela fresta da janela, alcançando a brisa da noite, sem olhar para trás. Talvez, mais tarde, teria consciência do perigo que havia enfrentado.

Josias continuava ali, parado, indiferente ao fato de quase ter virado jantar. Também pareceu não se abalar com a batalha que se travou bem diante dos seus olhos. O homem estava satisfeito e, em sua linha de pensamentos, estava convencido de que havia salvo a vida de Josias. Quando apagou as luzes da copa, teve a nítida impressão de ter ouvido um cricrilar baixinho, quase inaudível. Respondeu em voz baixa também: "De nada, Josias. Boa noite.".
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 23/03/2006
Código do texto: T127259

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette