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O ouro e o beijo

    Conheci Lucile nos meus verdes anos. Mais e  infinitamente verdes eram seus olhos, cartão postal de uma cidade repleta de guetos e palácios, formosura e decadência a um tempo, qualidades que a natureza e o mundo forjaram  no silêncio do tempo.
    Julguei ter conhecido seu passado e sua intimidade, su história e suas esperanças. À medida que me desnudava a alma, deixei-me levar pela ilusão dos seus encantos e à nudez física  relacionei a transparência da personalidade. Longas cabeleiras sedosas  a exalar o perfume das madrugadas agrilhoaram minha razão. Decorrido algum tempo, tornara-me um misto de  adoração  e poesia à musa que me elevou.
    Custeava-lhe a sobrevivência como convinha. Ela, por sua vez, nada exigia e a cada óbulo que lhe dedicava correspondia o cêntuplo, não aquele das alegrias celestes referido nos evangelhos mas , em moeda mundana e luxuriosa, cumulava-me de carinhos e afagos; quiçá, fidelidade. Não demorou muito que viesse a desejar ardentemente mais e mais o gosto da feminina gratidão. Dobrei-lhe as cifras, triplicaram-se-me os agrados. A escassez dos recursos  não me permitia bancar continuamente a festa dos sentidos e capitularam envergonhados meus instintos ante a excelência dos numerários e da importância que se lhe atribuía Lucile. A visão do vil metal era a comporta a represar ou dissipar prodigamente  os mimos daquela mulher.
     Não é tarde, se me permite o leitor, dizer que até esse instante não havia compreendido a relação de proporcionalidade  entre o ouro  e  o beijo. Novamente aquela disposição de traços  turvarva-me a razão e ensandecia minhas finanças. A lembrança do beijo cobria qualquer hipoteca e consideraria bem-vinda a falência, bastando para isso que essa , ao me visitar, desse comigo nos louros de tão bem esculpido busto.
     Foi-se Lucile com o equinóceo da primavera. Não me arruinou,porém. Ensinou-me, contudo, que muitas vezes, escondida sob a cortina do primeiro ato da peça de amor, vela indormida a ignomínia e a ambição , prontas a misturar ao doce do mel o azedume da condição humana.
Wanderlan
Enviado por Wanderlan em 24/03/2006
Código do texto: T127976
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Sobre o autor
Wanderlan
Fortaleza - Ceará - Brasil, 50 anos
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