FALTAM-ME AS LÁGRIMAS

Na semana passada, por toda uma tarde, pensei em escrever um texto que falava sobre as lágrimas que me faltam, no entanto, ele se perdeu no caminho entre o trabalho e minha casa. Provavelmente, pegou um atalho e não soube mais achar o destino a que estava predestinado.

Nem vou tentar chorar por conta deste texto perdido, pois já estou acostumada a perdê-los e depois, como ele mesmo iria contar a vocês se tivesse chegado aqui, faltam-me as lágrimas.

Não me lembro exatamente o que ele dizia, mas amarrei à lembrança algumas palavras soltas e assim, um tanto deformado, tentarei reconstruí-lo.

Recordo-me das lágrimas que não me pertenciam e corriam pela face daquela mulher enquanto me contava sobre a sua vida. Ela falava e sem se incomodar por eu ser apenas uma estranha, permitia que as lágrimas, espontaneamente, saíssem dos seus olhos. Eu permaneci em silêncio, ouvindo e pensando: “Minhas dores são tão pequenas, que nem deveria ter o direito de entristecer-me por causa delas.”

Recordo-me das lágrimas da senhora encostada na pia da cozinha. Ao ver as lágrimas, perguntei-lhe por que chorava. Era seu neto que estava indo embora e mesmo antes dele ir, já sentia sua falta. Disse-me que não queria chorar, mas as lágrimas simplesmente saiam. Sinceramente sentida pela dor da senhora, quase lhe disse que comigo acontecia o contrário: Queria chorar, mas as lágrimas não queriam brotar em meus olhos.

Estas foram as lembranças que ficaram daquele texto que se perdeu por aí. Duas mulheres, que por motivos tão diversos, choravam. Ele provavelmente dizia muito mais, talvez falava mais sobre mim e minha falta de lágrimas, no entanto, há certas coisas que perdem o sentido de existirem, de serem faladas ou escritas, depois que o tempo passa. Por isso, tentei perder estas lembranças da mesma forma que perdi o texto.

Contudo, estas lembranças foram muito bem amarradas por minha memória e, hoje, voltaram a terem sentido, pois novamente senti que faltam-me as lágrimas.

Minha mãe conta que quando eu era criança, um bebê ainda, chorava por tudo. Era uma verdadeira chorona (deveria dar muito trabalho). Não ia ao colo de ninguém, nem dos parentes (desconfio que já tenha nascido um tanto anti-social). Quem sabe, fico aqui pensando, seja este o motivo de não possui mais lágrimas dentro de mim. Chorei-as todas quando criança.

Agora, sem mais lágrimas, fico apenas com o sentir vontade de chorar. Como naquele dia em que escreveria aquele texto, em que senti muita vontade de chorar, porém não me lembro mais o motivo. Como hoje, que também estou sentindo esta mesma vontade.

Por qual motivo? Bem, prefiro guardá-lo para mim e para minhas lágrimas. Tenho esperança de que ainda voltem...

Dany Ziroldo
Enviado por Dany Ziroldo em 30/11/2008
Código do texto: T1311306
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