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CHICO XAVIER - O PALADINO DA ESPERANÇA

Dia dois de abril é o dia natalício de Chico Xavier, fato que me inspira a prestar-lhe esta pequena homenagem, onde quero contar meu primeiro contato com seus trabalhos.

Assim que fui amparado pelas revelações consoladoras da Doutrina Espírita, depois de dez anos de muito sofrimento, distúrbios emocionais, tratamentos, internações, quis muito conhecer a figura impar de Chico Xavier, que sempre me causara forte admiração.
De repente, na casa espírita que freqüentava em minha cidade, apareceu um casal recém-chegado de Uberaba e as coisas foram se encadeando naturalmente; não demorou muito e eu estava de partida com os novos amigos, que precisaram voltar à acolhedora cidade do Triângulo Mineiro para resolver algumas pendências. Corria então o ano de 1980.

Em lá chegando, numa quinta-feira, o casal me levou a casa de uns amigos espíritas que me hospedaram com muito carinho. A primeira coisa que me impressionou em conversa com os anfitriões, foi saber que a cidade possuía mais de cem casas espíritas, o que me proporcionou uma melhor noção acerca da força espiritual que Chico exercia com sua presença e exemplos.
Os trabalhos do Centro Espírita da Prece - casa que Chico trabalhava - seriam na noite do dia seguinte, sexta-feira, mas o risco de Chico não ir por problemas de saúde era bastante grande, por isso grande torcida e preces, não só minhas, mas de muitas pessoas que tinham esperanças de verem e tocarem o tão doce apóstolo da caridade.

Na quinta mesmo, à noitinha, levaram-me a conhecer os trabalhos de D. Aparecida Conceição Ferreira, no Lar da Caridade, que mantém até os dias de hoje o Hospital do Pênfigo (Fogo Selvagem) trabalho que muito me impressionou, tal o sofrimento que essa moléstia causa e os muitos cuidados dispensados aos enfermos que permanecem por longo e penoso tempo, trabalho encabeçado pela notável trabalhadora, que hoje conta com quase noventa anos e ainda na ativa. Assistimos inicialmente a uma sessão de Evangelização, depois fui convidado a participar de um pequeno grupo para levar carinho e conforto aos internados do hospital, onde aplicamos passes magnéticos, o que me proporcionou grande alegria íntima, não obstante o quadro triste com o qual me deparei.

No dia seguinte fui levado a conhecer diversas pessoas que conviviam com o Chico, dentre elas o Sr. Joaquim Cassiano e sua filha Márcia, com quem mantivemos emocionante diálogo, e em seguida visitamos o Sr. Pedro, antigo participante da corrente de trabalhos do Chico, que o acompanhava desde os tempos de Pedro Leopoldo, com quem conversamos por muitas horas, ouvindo histórias que envolviam os trabalhos de Chico, conversa que não queríamos que tivesse fim.

A noite de sexta-feira chegara e eu estava ansioso. Chegamos bem cedo, em torno das dezoito horas e já era grande o movimento em torno da humilde casa, onde já se organizava uma fila considerável que aguardava a abertura do portão.
Às dezenove horas o portão foi aberto e as pessoas foram adentrando calma e disciplinadamente à instituição,  tomando em seguida seus assentos no barracão rústico que acolhia cerca de duzentas pessoas sentadas. Eram pessoas ricas, outras muito ricas, outras pobres, outras muito pobres, muitas enfermas, cadeirantes ou de muletas, algumas tristes e outras ansiosas, além de curiosos, repórteres, fotógrafos, e como sempre alguns membros de outras religiões e seitas em busca de subsídios para atacarem a doutrina, sempre tão perseguida, que foram se acomodando, até que o recinto ficou completamente tomado, com pessoas encostadas nas paredes e sentadas nos corredores, todas, porém, envolvidas por uma postura de respeito que eu jamais presenciara em toda minha vida. Acredito que havia cerca de quatrocentas pessoas naquele dia, contando os que ficavam do lado de fora apinhando as janelas e portas, transbordantes de expectativas.

O silêncio era impressionante, não obstante a presença de muitos jovens e crianças que permaneciam ao som de lindas músicas que saturavam o ambiente durante as horas que antecediam os trabalhos. Havia uma magia inexplicável no ar que envolvia a todos numa esperança confortadora...
Às oito horas chegaram os integrantes dos trabalhos que foram tomando seus lugares na mesa, estando entre eles a Márcia Cassiano, Carlos Baccelli, seu marido, Sr. Pedro e outros, que se revezavam em lindas e inspiradas preleções.

A expectativa aumentava, quando grande emulação de emoções foi contagiando a todos que se entreolhavam procurando saber o que prenunciava, até que em meio a penumbra que envolvia as cortinas nos fundos do salão, surgiu em lento caminhar a figura terna do Chico, amparado por seu enteado e mais uma senhora, trajando o seu costumeiro paletó e boné que o personalizou, além dos óculos de aros largos que fizeram dele a figura peculiar que registramos em nosso inconsciente para sempre. Foi uma comoção contida em seu aspecto exterior, mas transbordante em sentimentos interiores nos corações dos presentes, sobretudo nos que estavam tentando vê-lo há muitos meses.

Chico não disse uma palavra sequer, apenas sorria; sorria o tempo todo, percorrendo o olhar sobre todos os presentes como se registrasse a presença de cada um, lançando sobre a platéia sua onda magnética de amor, como quem dissesse, expressando-se pelo olhar e pelo sorriso, que todos eram bem-vindos, ainda que se encontrasse acometido por grandes transtornos de saúde naqueles dias, dando já a primeira grande lição da noite: a de servir sempre que houvesse uma mínima possibilidade, não obstante as dores e sofrimentos dos quais nunca reclamava, sem jamais perder a fé e a esperança na bondade de Deus.

Logo após, sentou-se, tomou a posição que o caracterizava quando na sintonia com as faixas espirituais,  colocando a mão esquerda sobre as sobrancelhas, tomou um dos muitos lápis que ficavam ao seu dispor e começou a escrever. Enquanto escrevia com rapidez alucinante, só se ouvia o ranger dos bastonetes de grafite arranhando as folhas, que eram trocadas ininterruptamente por uma assistente. Escreveu por cerca de noventa minutos, parando apenas de quando em quando por alguns segundos, para sorver goles de água ou limpar o suor do rosto, enquanto todos permaneciam encantados por uma força incomum que se exercia no recinto, proporcionando incomum paz, podemos dizer celestial.

Depois das muitas letras advindas dos planos invisíveis, Chico passou a retomar cada uma das folhas e colocá-las em ordem, enquanto preces de agradecimento eram feitas em revezamento pelos integrantes da equipe. A essa altura, o velho relógio de parede da instituição já se aproximava das onze da noite.
Depois de trocar algumas idéias com Carlos Baccelli, que hoje dá prosseguimento aos trabalhos da casa, Chico o entregou o calhamaço de folhas já organizadas para que fossem transmitidas as mensagens advindas das equipes desencarnadas.

Baccelli leu inicialmente poesias e outras pequenas mensagens de esperança de teor genérico provinda de autores que não me lembro mais; logo em seguida começou a ler as mensagens direcionadas aos presentes que os desencarnados gravaram para seus entes queridos...

Este momento foi realmente emocionante e sublime. Quando os presentes percebiam que eram seus entes queridos, através de peculiaridades inconfundíveis e detalhes inolvidáveis, que transmitiam seus recados, as emoções eclodiam inevitavelmente, levando-os a chorar copiosamente, sendo que muitos chegavam a se ajoelhar, querendo demonstrar seus agradecimentos por tão grande dádiva de serem ouvidos e correspondidos. Neste dia foram cerca de dez famílias ou mais agraciadas por mensagens dos seus, que confortaram dezenas de corações e encheram a todos de esperanças e fé. Só mesmo os mais endurecidos e condicionados mentalmente por idéias preconcebidas não se emocionavam, mas mesmo assim estes ficavam confundidos e transtornados em suas descrenças e sentimentos refratários. Foram momentos comoventes de fé viva e vibrante que nos levou a sentir a presença de Deus de forma intensa e verdadeira. Quando Baccelli acabou de ler a última mensagem, os relógios já marcavam mais de duas da madrugada, e pouquíssimos tinham arredado pé do local.
 
Logo em seguida, foi se organizando uma fila imensa dos que queriam falar com o Chico, que recebia um a um com a mesma calma e atenção: eram pessoas que lhe beijavam as mãos – e quando isto se dava ele retribuía com o mesmo gesto – outras que lhe abraçavam; outras mais queriam tirar fotos; outras lhe tomavam longo tempo; outras que lhe pediam revelações e conselhos; outras que lhe entregavam bilhetes e envelopes... Ele recebia a todos com o mesmo sorriso e paciência, e tudo isto ocorria naturalmente, sem a interseção e controle de ninguém, através da madrugada afora.

Não fosse bastante a carga de emoções positivas que ocorriam naquela noite, um burburinho novamente invadiu os corações: Era a chegada de Jerônimo Mendonça, que era tetraplégico, um exemplo de fé e amor, que voltava de viagem à sua cidade, Ituiutaba, e resolveu passar para dar um abraço no Chico, o que o deixou muito feliz e intensificou ainda mais a felicidade dos presentes que foram agraciados por uma memorável noite de consolos e esperanças.

Não querendo me alongar mais, apenas coloco no ar a pergunta: Quantas e quantas noites como esta aconteceram naquele iluminado recinto? Quantos corações não foram consolados? Quantas dores amainadas? Quantas esperanças resgatadas? Quantos céticos acordados? Quantas dúvidas esclarecidas? Quantas pessoas transformadas?
Não foi a toa, com toda certeza, que Chico recebeu uma votação fenomenal quando foi escolhido, por promoção da Rede Globo, como o “Mineiro do Século” há alguns anos atrás, ficando bem a frente de Santos Dumont, o segundo colocado. Isto demonstrou o quanto é amado e respeitado por adeptos de todas as religiões. Podemos dizer que o pioneiro da aviação levou o homem acima das nuvens e Chico o direcionou aos céus.
 


Tião Luz
Enviado por Tião Luz em 31/03/2006
Reeditado em 12/11/2012
Código do texto: T131794
Classificação de conteúdo: seguro

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Tião Luz
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