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As surpresas no interior do "Catarina"

Ia até a casa de minha amiga Carmen, foi quando decidi mudar meu itinerário. A chuva começou e com ela a decisão de "todo mundo" tomar o mesmo ônibus que eu. Incrível como a cada cinco gotas de chuva uma pessoa decidia entrar no Vila Santa Catarina.
O "Catarina" como é popularmente conhecido pelos moradores da vila, atrasou consideravelmente naquele dia, por isso quem o aviostava ao longe tratava de dar um sinal antecipado para a parada. Foi um entra e sai, "leva a bolça", "cuidado com o meu pé"! E se não bastasse a muvuca no interior do coletivo, lá fora o trânsito estava desesperador: as avenidas principais "enroscadas" do início ao fim do trajeto !
O mais agravante fora na Avenida Jabaquara, já que era dia 28, dia mensal do santo mais "cotado" da região, o São Judas Tadeu. Avistava-se lá de fora um grupo de devotas em frente ao ponto de ônibus da igreja, pensei: - Este santo deve realmente fazer milagres muito bons, todo mundo por aqui é devoto dele ! Alguma coisa bem familiar também me fazia recordar da existência do santo, todos os casamentos de minha família foram feitos naquela igreja, batizados, primeira comunhão, crismas e até minha mãe era devota do São Judas, todo dia 28 estava lá pagando suas promessas com um pacote de velas brancas para recompensar os milagres obtidos !
Pois então, mas nem as devotas se safaram da "luta" no interior do Catarina, foram mais pisões daqui, bolçadas de lá e para dar mais "tempero" a cena a chuva "apertou", tornando principal motivo para inquietação. Quem estava sentado fechava o vidro para não se molhar, os que estavam de pé pediam para abrir a vidraça para melhor circulação do ar.
Permaneci ali, de pé, por mais ou menos uns trinta minutos, com um braço agarrado na barra de ferro para obter equilíbrio e o outro junto à bolsa, mantendo-a numa posição que não atrapalhasse a passagem. Até que a senhorita que esteve sentada à minha frente teve que descer, portanto consegui um lugar para mim. Estiquei um pouco as pernas e repensei na vida.É claro que isso não durou muito tempo, logo um garotinho se agarrou à  barra de ferro, que antes fora minha, e começou a se deliciar com um pacote de cheatos (justo daquele tradicional, feito com queijo, lembra ?). Pois é quando eu pensei queestava acomodada ao sentar-me, acho que me enganei, o garoto tinha a "proeza" de comer o salgadinho e falar com o colega ao mesmo tempo. Resultado: farelos e farelos soltos pelos ares, sobre minha bolsa e até sobre a minha cabeça. E para completar, aquele cheirinho de queijo que era fatal para qualquer alérgico como eu.
Eu não sabia se ria, se chorava, se pedia para ele parar de comer, ou se rezava para o garoto engulir tudo de uma só vez. É nessas horas que o único consolo é dizer, mesmo que em pensamento:
- Ai meu Deus, ou melhor: - Eu quero a minha mãe !
Vocês sabe, na hora do desepero toda proteção é pouca. Você busca auxílio mentalmente, mas sempre acaba olhando para os lados para ver se alguém tenta compreender, pelo menos com um olhar a situação pela qual você está passando, assim você não se sente tão desamparado num momento como esses.
Já com o estômago enjoado, com início de náuzeas e "segurando" a vontade de dar um sumisso no pacote do menino, de repente acabei me surpreendendo com o sorriso de alguém. Na verdade não era sorriso, a pessoa estava realmente rindo para mim. Achei que era "efeito" do cheiro forte, mas não, talvez meu pensamento, este sim tenha sido forte demais, porque quem estava ali rindo da minha cara, coincidência ou não, era ninguém mais que a senhora minha mãe com sua bolsa tamanho família. Ela observara toda aquela cena do salgadinho do início ao fim, vira toda minha agonia ali de pertinho e eu nem se quer notei a presença dela. Acabamos por fim, caindo na rizada !
Enquanto eu estava mal em meio a tantos desempedimentos, ao ver o semblante de minha mãe que é uma "figura" engraçada por natureza, percebi que ser brasileiro é poder pegar o ônibus mais cheio do mundo, onde pode acontecer coisas incríveis, desde pisões no pé até assaltos, mas apesar do desconforto e dos desempedimentos, podemos também ter o prazer de encontrar a própria mãe dentro deste pitoresco meio de transporte !              
Bíola
Enviado por Bíola em 04/04/2006
Código do texto: T133864
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Sobre a autora
Bíola
São Paulo - São Paulo - Brasil, 35 anos
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