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Lucidez

Flagrei-me espetando um milho verde com um pedaço de bambu seco para assá-lo no fogo do fogão a lenha na casa das minhas tias, no interior da cidade vizinha, numa tentativa desesperada e ridícula de resgatar algum sabor e sensação do passado da minha vida.
Digo flagrei-me porque me bateu um momento de lucidez, aqueles momentos de lucidez que lhe fazem deixar de ser feliz, lucidez que tem uma explicação científica para tudo e que lhe obstrui a inocência de ver pequenos milagres nas coisas.  Acredito que minha infância tenha sido a mais feliz que uma criança possa ter e, na medida do possível, retorno aos locais que conheci para tentar reviver alguma sensação.  Não digo que hoje eu não seja feliz, mas tenho expectativas mil e mesmo que alcance todas, não terei o que eu tinha naquela época, eu tinha o hoje e meu mundo físico não ia além do horizonte visível e bastava, se foi a minha inocência ignorante, atualmente me assimilei à sociedade, sou lúcido, adulto, tenho uma pequena noção de como o mundo funciona e é impossível ser totalmente feliz com tanta lucidez. 
Essa lucidez maldita que faz a gente ter que agir de acordo com nossa faixa etária, nos diz para não sermos velhos ridículos, sermos cidadãos pacatos, cuidarmos dos filhos com austeridade, darmos exemplo de maturidade, dizermos que não acontecia essas coisas no nosso tempo, fazendo nossas crianças crescerem guardando seus segredos e não confiando em nós, que perto delas parecemos Deuses infalíveis.  Essa lucidez que nos faz rasgar as nossas poesias de vergonha de que vão nos achar ridículos ao lerem, lucidez que nos faz conter quando imaginamos uma situação engraçada e rimos  caminhando na rua. Lucidez que nos faz representar um papel e mostrar ao mundo uma pessoa que não somos fazendo a hipocrisia perpetuar, é a lucidez que não nos faz demonstrar amor às pessoas para não parecermos fracos, essa lucidez é uma couraça que criamos para nos proteger de sermos nós mesmos e nos faz agir como convém, assim vivemos todos lúcidos, austeros e presos.  Todos temos uma criança eufórica e sensível dentro de nós, com ânsia de brincar, se divertir e sonhar, o problema é o adulto lúcido que também temos que censura todo o ato espontâneo.
Estou escrevendo esse texto agora porque estou num momento espontâneo e inocente, defendo aquele menino que estava dentro de mim, lembrando do passado através de um ato simples de assar uma espiga de milho.  A lucidez me condenou e me condena em muitos momentos da minha vida, está aflorando nesse momento e tentando me condenar por escrever esse texto, acho que vou finalizar antes que comece a escrever coisas muito sérias ou deletar o que já escrevi.
Marcos Boca Matos
Enviado por Marcos Boca Matos em 05/04/2006
Código do texto: T134165
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Sobre o autor
Marcos Boca Matos
Tapera - Rio Grande do Sul - Brasil, 45 anos
7 textos (509 leituras)
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Marcos Boca Matos