Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Bênção, vô !

      Quando a cidade grande tem deflagrado todas as minhas cápsulas de paciência e consumido inteiramente minhas reservas de tranqüilidade, volto à fonte do meu rejuvenescimento físico e mental: o sertão. Não se trata de um turismo ecológico ou de uma excursão com finalidade cultural. Representa o maior encontro  de uma personalidade com o seu sustentáculo nutritor. Somos , antes de qualquer coisa,  o campo que cavalgamos, o rio onde nadamos, a caatinga que assistiu nossos primeiros passos, vacilantes, é verdade,  mas firmes por serem acompanhados pelo olhar quente e estimulante do sol matutino derramado naquelas plagas.
       Nessas constantes incursões à minha aldeia, assaltam-me lembranças da infância, essa amostra do paraíso que o tempo não consegue parar, cristalizando uma soma permanente de  momentos felizes e devaneios ao pôr-do-sol.
       Viajando no trem da saudade me deixo conduzir, como ofuscado por uma miragem, ao pátio da casa  do meu avô materno. Contemplo-a. De taipa, com largas e escuras alcovas. Percorro a sala grande, depois  a menor e, por fim, a cozinha com seu fogão à lenha, fumegante e minha tia junto a ele providenciando o almoço que sempre me teria como comensal privilegiado, dada a predileção declarada de meu avô por mim, em relação a todos os outros netos ou qualquer outra coisa. Tudo podia esperar menos minhas vontades. Eram para mim todos os afagos e todos os mimos. Satisfazia-me a menor teimosia, a mais esdrúxula   das renitências , respondia-me às interrogações com solenidade, arando no incipiente repórter  o terreno propício ao surgimento de outras  inquietações, estas nem sempre
 respondidas
       Expulsa a tarde com as sombras pesadas da noite, manifestavam-se em meu mundo  as visões lendárias das histórias que ouvira na noitada passada.E com que adereços eram enfeitados os lobisomens, com quanta riqueza de detalhes era contada cada narrativa terminando por empertigar meus medos, aumentados pela negritude que os olhos não podiam alcançar, lançando-me todo inteiro  por entre os braços fortes, quentes  e acolhedores de meu avô, guarida ausente e sentida pelo resto dos meus dias, muitas vezes cópias ampliadas,em cores vivas , não mais do divagar infantil, porém da letárgica inquietação de uma época.
       O mourão da casa velha, o banco duro de madeira primitiva, o sentimento de liberdade experimentado no alvorecer da manhã prenderam minha alma com o grilhão da nostalgia. Meu olfato recende àquela fruta fresca que eu não terminei de saborear. Meu coração ainda sobrevoa em  vôos rasantes a terra primeira do meu nascimento, da minha primeira inverdade, da minha inicial compreensão de mundo, da travessura punida com um afago, da imensidão dos projetos tecidos  com os fios de ouro da invenção menina, do boizinho que era somente meu, do beijo de gratidão que nunca pude dar no anfitrião sublime dessa festa de calça curtas.
       A água fria  do poco do riacho nas manhãs  que me faltam  e os caminhos de terra branca ausentes, hoje, dos meus pés batizaram meu ser num ritual de sagrada marca, imprimindo na memória do coração a imagem daquele tempo que me tem ainda como hóspede constante quando  o presente se avizinha por demais real. Nesse  intercâmbio vou exorcizando as fronteiras que  separam o pretérito do presente, numa intrigante  cumplicidade muda dos esquemas de escabismo e enfrentamento da condição humana.
      Percebeu o leitor que nessa trama sentimental no país das minhas origens fui movido pelo combustível diáfano e sereno de minhas saudades matrizes, travesseiros suaves de um sono de outono.
      A fazenda antiga não existe mais. Meu avô desapareceu no cordel do último suspiro há anos. Só há desolação onde morou felicidade. Cuidei, no entanto, antes  da hecatombe final, em tecer um ninho quente onde fossem preservados os fósseis desses pingos de estrelas, evitando,assim, a morte por esquecimento, o mais triste dos fins.
       Peregrino de uma estrada incriada, sigo ciceroneado pela mão cálida  do ancestral defunto, ora vertendo em cada ilha uma lágrima, ora abrindo  um sorriso em cada porto, qual agricultor divino a semear rasgos de encontros nas covas fundas da história.
Wanderlan
Enviado por Wanderlan em 06/04/2006
Código do texto: T134933
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Wanderlan
Fortaleza - Ceará - Brasil, 50 anos
10 textos (457 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 20:11)
Wanderlan