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O Pior da Ditadura

   A sujeira do bar, o mau cheiro da lingüiça frita, dos cigarros falsificados, da maconha genuína e do suor das prostitutas gordas já não lhe incomodavam.  Houve tempo em que as camisas custavam duzentos dólares, ambientes a meia-luz e o gim com tônica ficava azulado por causa dessa iluminação. Mas isso tudo passou e tão inútil quanto aquelas lembranças eram o que lhe tinha sobrado. Sobrara-lhe a revolta e o requalque de uma infância mal resolvida, sobrara o que julgava ser a “consciência da injustiça social”, a qual, ele tinha absoluta certeza de que deveria ser exterminada à bala.
   Lembranças inúteis, ideologia fora de moda. Alguém até já tinha decretado o “fim da História”. E quase todos decretaram que ele era pré-histórico. Bicho contido na Arqueologia foi, então, buscar a sua caverna e ali no bar achou quem lhe escutasse. Afinal, ouvido de bêbado não tem dono mesmo . . .  Mas por mais que repetisse a surrada cantilena não conseguia convencer a quem quer que fosse, exceto ele próprio. E a coisa foi tomando tal vulto que a paranóia instalou-se definitivamente em sua mente perturbada.
   As suas memórias mais recentes quase que se apagaram totalmente. Lembrava vagamente que fora casado, que tivera um filho estudante de cinema, que havia tido bons empregos, algum dinheiro e que, algumas vezes, fora feliz.. Com pouco mais de boa vontade, lembrava que tinha câncer, que as pernas doíam e que quando misturava antidepressivos,  morfina e pinga passava muito mal e quase morria. Um conjunto de fragmentos espalhados e confusos.
   O que lembrava com clareza era das idéias dos anos sessenta. Lembrava com saudades que transar (sempre se recusara a falar “trepar” por achar um vocábulo tipicamente de pobre) era um ato político. O orgasmo ideológico. Após a transa o papo angustiado dos dilemas existencialistas. Papos profundos. Intensos. O Homem revisto. E sendo revistado periodicamente pelas Forças Armadas, Unas, Irmanadas e Coesas.
   Havia Sartre e, principalmente, havia Marcuse e os seus “jovens zangados”. Havia um “Sistema” a destruir, uma classe média a exterminar, uma moral a abolir e uma gente a resgatar. Tanto havia, meu Deus!
   E foi assim, num desses dias de chuva que congrega as solidões dos bêbados, que o velho inflamou-se e lançou seu discurso surrado. Do orador só se conseguiu escutar que “a religião é o ópio do povo” e logo a seguir a platéia deu-lhe entusiasmado aplauso, pois mesmo sem ter entendido nada, gostara das palavras “ópio e povo”. Afinal alguém se lembrara do povo e dizia que alguma coisa era sua.
   Mas, na verdade, nem isso era do povo. Logo após as mesas tortas dos bilhares encardidos levantou-se a voz do velho polonês que num português sem sotaque destruiu aquela pobre felicidade geral. Não, meu caro e ilustre Senador dos botequins da vida: ao povo não é dada religião. Apenas o que convém à manutenção das associações ditas religiosas. E quanto ao ópio, só em forma de Morfina e desde que autorizada pelos ilustres médicos. Ao povo resta apenas a Ditadura.
   E esse povo, conforme Rousseau afirmou, troca a sua liberdade pela (ilusória?) segurança. Não são raros os aplausos quando o Exército  sobe às Favelas, ou quando garante a segurança dos grandes eventos. Quebrar os vidros de um banco qualquer é vandalismo (ou vandalismo seria a existência do banco?). Tirar o sossego das "pessoas de bem" nem pensar. E não se pensa . . .
   Não, meu ilustre Senador.Eu que já vivi em Ditaduras da Esquerda e da Direita posso lhe afirmar que o pior da mesma não são as prisões, as torturas, os desaparecimentos, as mortes (tanto as fisicas quanto aquelas que formatam o resto da vida).
   Não Senador! O pior da Ditadura é o fato dela ser desejada . . .
 
Fabio Renato Villela
Enviado por Fabio Renato Villela em 08/04/2006
Reeditado em 14/04/2006
Código do texto: T135903
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Fabio Renato Villela
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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