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O Velho Barzinho. (ou o Barzinho do velho)

Certa vez perguntou-me um amigo como resolvi montar meu primeiro bar, se era vocação familiar ou talvez um simples ímpeto juvenil. Não consegui responder até por que, nunca havia pensado nisso. Só sei que o desejo de ter um bar não é desejo tão incomum, o tempo me apresentou uma infinidade de pessoas que confessaram ter tido em certa ocasião da vida essa mesma vontade.
Acredito, porém que estes pensamentos são comparáveis a sonhos infantis de um dia ser Astronauta, Jogador de futebol ou Artista de televisão, sonhos passageiros e sem conseqüência e na maioria das vezes, não realizáveis.
Meu pai, recém vindo de Portugal, junto com minha Mãe, lutou muito para sobreviver, disto só tenho conhecimento por ouvir dizer, posto que nem nascido eu era, foi Saqueiro (na zona portuária de Santos), Caixeiro (balconista), Padeiro, Merceeiro, Açougueiro e até Tecelão por pouco tempo, (talvez para não atrapalhar a Rima das profissões), mas Botequineiro nunca foi, aliás, para ser fiel a este relato teve um bar sim, lembro-me agora, em nossa Casa, um daqueles Barzinhos de se dispunha nas salas de estar, onde se guardava garrafas de boas bebidas, caras e na maioria das vezes, lacradas aguardando uma ocasião especial que nunca vinha, além de correspondências, rolhas velhas, envelopes de analgésicos e antiácidos, e tudo mais o que não se sabia onde por.
No velho barzinho, além desses itens relacionados, mantinha em uso uma pequena variedade de bebidas, tão pequena que sou ainda capaz de relacionar de memória; um Cinzano tinto; uma Bagaceira (da boa); um Rum Merino (carta ouro); uma garrafa de Cachaça e um litro de Old Eight.
O primeiro para as Senhoras, servido puro e sem gelo. A Bagaceira servida da mesma forma, para algum português saudoso. O Rum para as noites muito quentes misturado é claro com Coca, algum gelo e limão e o Old Eigth, com guaraná.
Um desses frugais coquetéis de meu Pai que era composto por Bagaceira, água, açúcar, gelo e fatias de limão, e era servido em copo tipo “Maracanã”, tem o dom  de trazer vez por saudades, embora  depois de mortas (às saudades), me arrependa e me encha de azia. Resta descrever o uso da Cachaça, que além de compor a  Caipirinha, feita em copo comunitário aos Domingos, servia esta sim ao dia a dia, para abrir o apetite de meu Pai, na maioria das vezes misturada em partes iguais ao Cinzano,  mas que deveria ser servido no mesmo copinho que raramente era lavado, e quando o era, sempre a revelia e revolta do velho,  registre-se que essa batalha pela “higiene” do copinho perdurou por dois casamentos, ou seja, por uma eternidade.
Talvez você esteja se perguntando o porque do destaque a esse móvel que ornamenta minhas memórias. Acredito que seja pelo espírito de Bar que este móvel transmitia.
Era ao lado deste, alias corrija-se a sua frente, que parávamos ao entrar na casa dele.
-Queres tomar alguma coisa? Perguntava já abrindo suas portas, como a mostrar-lhe o conteúdo já muito conhecido,
- Abre lá uma dessas garrafas! Sugeria por simples figura retórica.
- Toma ao menos um meio-a-meio ( o bendito Cinzano e pinga, Argh!), insistia já pegando o “copinho”,
Aí sim a conversa caminhava, as novidades eram postas em dia, entremeadas por fatias de chouriço ou salame, azeitonas, cebolas em conserva e o que mais houvesse até que eu ameaçasse ir embora.
- Almoças comigo? Precisas de alguma coisa? Quase que exigindo que eu precisasse... Coisas de Pai preocupado.
Puxa vida! é esse o espírito do verdadeiro Bar, receber e oferecer algum conforto a quem dele se aproxima. Meu Pai era Botequineiro e não sabia.
Meno um botequineiro
Enviado por Meno um botequineiro em 08/04/2006
Código do texto: T135977
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Sobre o autor
Meno um botequineiro
Santos - São Paulo - Brasil, 70 anos
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Meno um botequineiro