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A MENINA DA FEIRA

Evaldo da Veiga


Mariazinha exultava! Era sempre alegre,
mas aquele era o dia de maior realização em sua vida.
Custou muito, mas conseguiu formar o seu grupo de Rock.
Pagou na bucha por três guitarras, um contrabaixo, uma bateria,
caixas de som, microfones, tudo zerado.
Valeu a pena lutar e economizar.
Era conhecida como a Menina da Feira, porque começou 
a trabalhar com oito anos vendendo verduras. 
A mãe lavava roupa pra fora e o Senhor Juventus era caseiro . 
Ele foi ficando no Sitio, ficando...  e já decorreram 30 anos
 sem carteira assinada.
Mas tudo isso já era passado. A Menina era graciosa, cantava bem,
exímia na guitarra, era alegre e já tinha o seu conjunto
de Rock.  Os instrumentos chegariam na hora de cortar o bolo,
naquele sábado em que ela completava dezoito anos.
O conjunto ia ser formado através de uma seleção rigorosa.
Todos amiguinhos de infância mas só tinha vaga pra quatro
e dois que poderiam ficar na reserva. Quem sabe dois 
se alternavam, de repente...
Até então a Menina da Feira dava umas canjas nos aniversários, 
mas não podia se apresentar em casa noturna, era "dimenor".
A partir daquele dia tudo liberado, maior de idade, sem barreiras na vida, trabalho e sucesso.
Iam ensaiar muito e logo logo, depois da ida ao Programa do
 Jô Soares e ao Altas Horas do Serginho, viria à visibilidade e os contratos choveriam. 
Ela tinha um otimismo que nunca falhou.
O trabalho na Feira adeus, ensaiariam a tarde e a noite
 e ela tinha uma graninha na Caderneta de Poupança pra
 segurar um tempo. Tudo sob controle.
Era o sucesso e quem sabe um dia  dividiria o palco com 
Rolling Stones, U 2 ? hum... tinha tanta coisa boa pra acontecer.
Agora era ensaiar, preparar roupas e encarar alguns barzinhos 
de inicio. E também por que não tocar na Feira? Era muito popular
 no local e humilde o suficiente para se apresentar e
passar a sacolinha. Pediria ao público um dinheiro para 
pagarem ao espetáculo que assistiam e nisso se sentia confortável porque não mentiria que o dinheiro era em nome Deus.
Faltava o nome do conjunto,  mas grande parte do caminho
estava percorrido.
"Menina da Feira," era assim que ela era conhecida,
 Mariazinha só em casa.
Por que não "Menina da Feira e os Irados". Não, Irados não.
 Nome é complicado, mas logo surgiria um legal.
À noite na hora de cortar o bolo chegaram os instrumentos
 e foi alegria geral.
Ela fez um pequeno discurso dizendo que o Senhor Juventus 
não seria mais caseiro  e  teria o sitio dele. A mãe, Dona Aracy,
 deixaria o tanque de roupa de lado, teria lazer e descanso.
Mas muitas vezes as peças da vida não se ajustam bem.
Carros da polícia rondavam o quarteirão e os traficantes 
se sentiam incomodados.
Foi um dia de  muito calor e abafado. E isso deixou policiais
 e bandidos mal - humorados.
Viram chegar muitos instrumentos musicais, o pessoal batia palma, sorria, era muito alegria para o gosto deles.
E com isso, "com esses motivos relevantes"...
Resolveram trocar tiros e a Menina da Feira caiu abraçada à sua Guitarra.
Dentro do instrumento a nota fiscal com  o pagamento à vista.
Nunca mais sorriu, nunca mais cantou, nunca mais 
abriu os olhos, mas partiu dessa  sem deixar dívida.

evaldodaveiga@yahoo.com.br


Evaldo da Veiga
Enviado por Evaldo da Veiga em 09/04/2006
Reeditado em 02/05/2007
Código do texto: T136349

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Sobre o autor
Evaldo da Veiga
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
952 textos (313605 leituras)
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Evaldo da Veiga