2 DE JANEIRO

        Enquanto pensava numa morte prematura, uma canção de Bono Vox tirava-lhe a sensação de peso nos ombros, de obrigações infindáveis, de tudo aquilo que ele mais abominava. Perguntava-se o por quê de tudo aquilo. Da calmaria relaxante ao prelúdio de uma luta vindoura. Ele buscava as palavras, mas nada fazia sentido. As frases que marcaram a semana da virada do ano, e guardadas como um presente diziam:

         ” Toda escolha traz consigo alguma perda ”.

        “ A melhor escolha é aquela que leva em conta onde ganhamos mais, e não onde mais perdemos. Essa é a forma como a alma regozija-se, sempre se alinhando com os ganhos e não com as perdas “

         Era algo que lhe parecia novo, porém a sensação era exatamente a inversa. Enquanto digitava aquilo que parecia ser um poema, um gole generoso de Coca Cola desce suavemente pela garganta.

         Descrever uma sensação não era algo fácil. Parecia-lhe como diferenciar cores, sem ter visto um só raio de luz desde o nascimento. As palavras voavam de um lado ao outro, um balé maravilhoso, porém sem nenhuma ordem. Tentou novamente…….


                  “Quanto mais saber,
                   Mais sofrer,
                   Quanto mais querer
                   Mais abster
                   Quanto mais viver
                   Mais é morrer
                   Ou seja
                   Quanto menos saber
                   Mais gozar
                   Quanto menos querer
                   Mais obter
                   Quanto menos viver........
                    ....ele não conseguia terminar o tal poema…….”

             Ele sabia muito bem que aquilo não seria publicado, então porquê continuar a tentar? Decidiu trocar o disco. Bono era muito “buono”, mas aquele momento pedia algo diferente. Nada de "Sunday, bloody Sunday". Desceu correndo as escadas e não imaginava o que a nona música do disco do U-2 lhe reservava:
            “One Step closer”…….que dizia ….

         ” Eu estou em uma ilha num cruzamento movimentado
           Eu não posso prosseguir, eu não posso retornar
           Não consigo ver o futuro.........."

           Parou ainda no meio do caminho e pensou:

         “ Essa música merece ser ouvida até o fim”. Um nó na garganta tirava-lhe o folêgo. Sentado em frente ao aparelho de som, nada lhe parecia combinar. Aquela música tinha que ser ouvida até o fim. Revirava o porta-CD em busca de algo que lhe ameniza-se aquela asfixia.
          Passaram-se alguns minutos e Pink Floyd foi a que melhor cabia: Eclipse, The Dark Side of the Moon, Money, Time. Trocou o disco e subiu as escadas.
          Chegou rápido a sua mesa e o coração pulsante, da primeira música do disco, acalma-lhe, como se fosse o coração de uma mãe durante a gestação do filho. Bum bum, bum bum, bum bum, o ritmo cadenciado aumentava, cada vez mais marcado, e como numa sinfonia de Wagner, um trovão repentinamente ecoa forte e retumba pelas paredes. Uma tempestade estava a caminho A sinfonia de sons cresce e em minutos vários outros sons adentram o ambiente . O avião a jato, os cães num coral desodernado, a motocicleta, uma Kombi, pássaros e até uma criança berrando num solo digno de Placido Domingo.

           Em pleno devaneio, a singular sinfonia lhe traz mais motivos para continuar tentando montar aquele quebra-cabeças de peças nem sempre paupáveis.
          As canções chegam e mostram outras faces do mesmo universo. “Roll the bones”, do Rush, reverte a visão para um lado mais espartano, lutador. A coragem deveria ser a chama primordial do que ainda virá.  É isso mesmo: Roll the bones (“Jogue os dados”) e arrisque-se. Experimentar é a razão de estarmos vivos.
        É verdade que tudo tem seu preço, seu risco, e graças ao nosso Criador que assim são as coisas para nós. Tomar riscos é experimentar não somente o sorvete de creme, e sim todos os infinitos nuances de cada sabor e suas combinações.
        Ele já nem sabia mais no que acreditar, no que apostar. As opções surgiam na mente e algumas ressoavam no coração. Tudo era possível. Nenhuma era também uma boa opção.

        Era um 2 de Janeiro, o mesmo nome da rua onde passou toda a infância, até deixar, aos quatorze anos, seu gato Bicão e um quintal maravilhoso, para ir morar em um apartamento de 72 metros quadrados.

        Era 2 de Janeiro e ainda faltavam 363 dias para chegar ao próximo ponto de inflexão, o próximo reveillon . Ele se sentia como nos primeiros 100 metros de uma maratona que obrigatoriamente tinha que ser completada. Claro que as dores no meio do caminho iriam aparecer, mas a sensação de uma vez mais cortar a fita no último passo da tão longa corrida, era o que lhe empurrava para frente.

        Ele sentia que algo seria diferente naquele ano que se iniciava, que todas as opções eram cinza sob um certo ponto de vista, mas de um colorido intenso quando a luz incidia mais diretamente no ponto em questão.

        A percepção de como fazer as coisas mudara. Escrever era uma delas. Quase tudo que ele havia escrito até aquele momento, era o resultado de uma volúpia de querer expressar-se. A pedra bruta era a forma de expor as idéias.     
        Era válido, mas o desbastar da pedra fazia com que o brilho fosse surgindo aos poucos, passo a passo. Ele percebeu que a impaciência era seu pior demônio, seu principal inimigo.

        A música havia terminado, as tarefas concluídas, a sinfonia ambiental mudado seu tom……decidiu abençoar aquele momento e guarda-lo como um amuleto para o que viria naqueles 363 dias restantes.

       Ele apagou as luzes, fechou as portas do seu Templo e foi para casa.