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               CRÔNICA DA  PÁSCOA

 
      
Nesse período cristão recordo minha infância: minhas duas irmãs e eu buscávamos os ovinhos de celofane colorido nos sapatos que deixávamos enfileirados no corredor de acesso ao nosso quarto.
       Era em nossos sapatos que meus pais colocavam os ovos de Páscoa. Não sei se era assim em outras famílias ou se era invenção deles. Bem mais tarde, quando já tínhamos nossa irmã caçula, é que eles adotaram a brincadeira de esconder os ovos de chocolate pela casa ou no jardim. Ovos das marcas Köpenhagen ou da Sönksen, que não tinham os preços salgados de hoje. Aliás, a Sönksen - minha predileta - desapareceu.
       Naquele tempo, anos cinquenta, ganhar ovos de Páscoa era um complemento dessa cerimônia santa, não seu objetivo principal. Não havia essa corrida ao consumo de chocolate nem a publicidade maciça em torno dele atiçava as crianças. Não se conhecia também o termo chocólatra, que invadiu o final do século XX e este.
 
      Tradicional mesmo era a bacalhoada da Sexta-Feira Santa em família, regada a muito azeite português, batatas pré-cozidas com folhas de louro, pimentões vermelhos, azeitonas verdes, ovos e tomates em rodelas, favas ou grãos-de-bico no melhor estilo da culinária portuguesa, acompanhada de um arroz bem solto e branquinho, couve rasgada. Doce de ovos e manjar branco para fechar a refeição festiva.

      Ritual e fervor de que não me esqueço eram as três procissões da Semana Santa, comuns na maioria dos bairros paulistanos. 
Eu participava delas, na mão uma vela acesa protegida por um encartado de cartolina, na cabeça o véu branco. Adentrava-se a madrugada de quinta-feira acompanhando Jesus ao Monte das Oliveiras, traído por Judas, preso pela guarda pretoriana. Era a Procissão da Prisão, julgamento e crucificação de Jesus.

A segunda era a Procissão do Enterro na sexta-feira. Mostrava Jesus morto, o cortejo fúnebre rumo ao santo Sepulcro, Maria amparada e a devota Verônica de Jerusalém, mulher que enxugara o sangue e suor da face de Jesus com um lenço quando este carregava sua cruz. Na sequência, ela subia num banquinho e entoando canto lamentosíssimo mostrava aos presentes que a face de Cristo ficara impressa no lenço. Era o milagre, o ápice da cena dramática! Como eu chorava naquele momento!
Por fim, havia a Procissão da Ressurreição na madrugada de domingo. Passava por sobre tapetes feitos de serragem colorida, pombinhas eram soltas, muitas crianças vestidas de anjos, paramentos religiosos agora brancos e dourados, cânticos triunfais e gregorianos, a comunhão dos fiéis, o intrigante latim nas orações e o tocar de trombetas. Era a festa do Jesus Vivo, ressuscitado e renascido no coração dos fiéis.
      Outra tradição da sexta-feira era o silêncio musical nas emissoras de rádio. Não se permitiam músicas 'profanas" no dia de contrição, em que se rezava por Jesus morto. Às famílias também não admitiam música ou risadas em casa. Era um dia dedicado à tristeza e à dor.

      Numa dessas páscoas o chofer de minha madrinha de crisma, tia Luzia, veio à nossa casa, no Ipiranga, para me trazer um ovo de páscoa. Ela era uma senhora rica e meu pai um trabalhador assalariado e esforçado. 
Era um ovo grandão da Sönksen, envolvido em celofane vinho, com laço cor-de-rosa, flores de açúcar no centro da face exterior, dentro de uma caixa. Foi o primeiro presente chique que ganhei! E foi também nessa época que me apaixonei por essa palavra e passei a denominar de "chique" tudo o que eu achava bonito demais. Juntamente com o ovo, outros dois presentes: um ferrinho de passar roupas, elétrico, alemão, raro no Brasil até então, e uma caixinha estreita contendo uma fita de veludo rosa, francês! , para enfeitar meus cabelos claros, anelados e compridos. Eu tinha 7 anos.
Tempo romântico e cheio de fantasia aquele ... uma menina simples se encantava com uma fita de veludo. Que coisa tão desconhecida das meninas de hoje! 
 
      Fatos como esses se perderam nos anos, mas guardei-os no coração e gosto de relembrá-los, principalmente na quaresma. Diferentemente do que escreveu Fernando Pessoa, eu trouxe meu passado na algibeira, cultivo-o com ternura, é uma saudade que afaga.

      Nesta Sexta-Feira Santa novamente incensarei minha casa com carvão perfumado de mirra e alecrim, queimado junto com ramos de louro e palmeira bentos no Domingo de Ramos.
É a tradição portuguesa que minha avó Izaura cumpriu ano a ano durante minha infância.

      Com ou sem chocolates, azeite e bacalhau, que a festa Pascal esteja em cada um de nós. Que seja um rito para o advento um tempo novo, revigorado, que valorize a Vida e as relações fraternas. Que possibilite nosso renascer e fortaleça a crença numa humanidade melhor e verdadeiramente justa.
       Feliz Páscoa!
                                          

Kathleen Lessa

[14/04/2006]

KATHLEEN LESSA
Enviado por KATHLEEN LESSA em 14/04/2006
Reeditado em 26/08/2013
Código do texto: T139194
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
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