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A mulher na língua dos brasileiros



As brasileiras não são tratadas da mesma forma, pelo vernáculo, que os brasileiros. É a triste conclusão a que chegam pesquisadores, gramáticos, semanticistas, folcloristas e, por que não, as feministas. Mulher sofre na boca o povo.
Pelo menos essa é a conclusão a que chegou Eliane Vasconcelos Leitão, em sua tese de mestrado – A Mulher na Língua do Povo – publicada pela Ed. Achiamé,  em 1981. Vejamos alguns pontos pitorescos. Alguns acréscimos são de nossa responsabilidade.
Uma mulher fica muito mais emburrada ao ser chamada de gorda ou barriguda do que de burra. O homem, ao contrário. A sociedade valoriza para os homens, a inteligência bem mais que a beleza, embora o mundo do consumo tente aproximá-los. Mas, na prática, uma coisa é Mário ser barrigudo, outra é Maria ser barriguda.
Vinícius já havia dito que na mulher beleza é fundamental. Manuel Bandeira tem uns versos assim: "O que eu adoro em ti/Não é a tua inteligênia (...)” Mário Amato faz anos disse: "Dorothéa Werneck é inteligente, apesar de ser mulher”. Na língua popular, mulher quando é feia ou traz mal-estar visual é chamada de mocréia, bucho, canhão, dragão. Se fala demais é uma cobra venenosa.
Mulher bonita, na língua do brasileiro, é sempre algo comestível, degustável, ligado à oralidade: gostosa, fofinha, um doce, deliciosa ou saborosa. Na linguagem tecnológica moderna, é um avião. A bem da verdade, mudanças existem com o desenvolvimento do núcleo feminino em muitos homens, a partir de uma classe média bissexual, apolínea, Afrodita, unissex. São os almofadinhas da década de sessenta que desembocam nos mauricinhos da década de noventa.
Cabelo branco em homem pode ser charme; mulher é sempre velhice. Homem profissional é um competente, já a mulher profissional pode também ser uma prostituta. Quando feia de cara e com o traseiro desenvolvido é chamada de Raimunda. Por sinal, há uma série de palavras sem correspondentes masculinos: piranha, meretriz, rampeira, pistoleira.
Na análise do bestiário animal, da linguagem zoomórfica, a vida da mulher se complica mais ainda. Homem do sexo masculino é cachorro (canalha), garanhão (conquistador), touro (forte), lobo (sanguinário) ou bode (namorador). Mulher é cadela, égua, vaca, mariposa, loba ou piranha (com conotação sexual negativa) ou então é tanajura (de nádegas desenvolvidas), perua (mulher produzida) ou víbora/jararaca/cascável/caninana (mulher braba, maldosa). Você não vê homens com esses substantivos-adjetivos, a não ser quando: ele é veado ou bicha. Mas nem tudo é ruim: com a evolução já apareceu o "homem galinha" e o "gato" com conotações idênticas para os três sexos.
Ser virgem era honra para mulher e nada recomendável para o homem. Macho sem honra ou desonrado tem outro sentido: corno, chifrudo, traído, Cornélio.
Idade de mulher não se pergunta, é falta de educação. Se passa da juventude e é feia chamam-na de bagulho, sucata, traste, usada, bichada ou enferrujada. São freqüentes as expressões populares em relação às mulheres feias-velhas: "Parece lotação de subúrbio" (feia, velha, enferrujada e ninguém quer...) / "Aeromoça de 14-Bis" ou "Tão antiga que ensinou americano a dançar samba na II Guerra Mundial".
As frases "educativas" dos modeladores sociais para as meninas são “Comporte-se como uma mocinha”/Menina não pode andar desarrumada"/"Moça, de boa família age assim"/"Seu pai não quer que chegue tarde" ou "Cuidado para não ficar para titia”. As sociedades patriarcais são repressoras com a homossexualidade masculina e com a prostituição feminina.
O homem faz o filho na mulher. A mulher encomenda o filho. O Homem come, mulher é comida. Ele pretende, ela é pretendida. Mulher é a escolhida, deve esperar pacientemente pelo marido, "Deve se arrumar para o marido, senão ele arranja outra”
Mas os tempos mudam. Já temos Ricardões e Ricardonas. Homens que cantam subalternas e mulheres que cantam subalternos. Mulheres que convidam homens para dançar sem esperar pela "Festa da Cebola". Existe, hoje em dia, coroas gostosos e gostosas, prostitutos e prostitutas, donzelos e donzelas, mauricinhos e patricinhas, muitos com brinquinho na orelha e rabinho de cavalo no cabelo. É. Tudo mudou e agora surgiu o metrossexual. Você já sabe bem o que é essa mistura?
Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 20/04/2006
Código do texto: T142221
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais