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O Consórcio para Maridos



Do Professor Francisco Assis de Lima, meu amigo, recebo um presente de grego: carta onde expõe, em tom de humor, uma proposta para as mulheres, de “Consórcio para Maridos”, haja vista a dificuldade porque passa o mercado de homens, na sua visão. Chiquinho, sem dúvida alguma, vai enfrentar a ira das feministas Elizabeth Nasser e Margareth Gondim.
Limito-me a reproduzir e fazer alguns comentários sobre o assunto. Eis o teor:

“Minha amiga:
A firma  Salvação S/A, vendo a dificuldade do mercado de marido, vem mui respeitosamente lançar nesta praça o primeiro Consórcio de Maridos, destinados a público seleto e de alto estilo: assistentes sociais, psicólogas, enfermeiras, nutricionistas, professoras em geral e médicas. Exigimos poucos pré-requisitos: dez salários-mínimos. Aceitamos seu marido velho como lance.
Trabalhamos com diversos planos: doze meses, vinte e quatro e cinqüenta meses (para profissionais desempregadas).
Em caso de pressa, temos um plano especial com a divulgação proibida. Nossos modelos são revisados e garantidos. Não cobramos ágio. Entrega imediata..
Modelos: Standard, luxo e super-luxo. Será entregue um modelo para lance, e um por sorteio. Garantias: casa, comida e roupa lavada, paciência, tolerância e dez salários-mínimos por mês, corrigidos mensalmente de acordo com o IGP, mais dois por cento de ganho real.
Garantia da consorciada: três por sete (no mínimo); contra falhas primárias, reposição do móvel; em caso de ineficiência e ou imobilidade, Ricardão na assistência técnica por 24 horas; em caso de desespero, ligar para o Disk-Ricardão. As interessadas deverão ligar, dirigir-se para o telefone 08001284, para maiores informações e esclarecimentos.
Nossos representantes terão o máximo prazer em atendê-las e apresentar-lhes os modelos.
Exigimos que as interessadas nos recebam em apartamento ou residência, sábados à  tarde, com “whisky” e fundo musical suave e ameno.
Demonstraremos a eficiência do modelo. A primeira demonstração será grátis.
Esperando a divulgação da proposta e interessadas, subscrevo-me:
Francisco Assis de Lima”

Caro Prof. Francisco: Como se trata de humor, mostrei sua proposta a várias categorias femininas. As descasadas, desquitadas, divorciadas ou em litígio, não se acham nem um pouco interessadas em marido. Nem falar. A maioria acha não ter valido a pena, exceto pelos filhos, a experiência de marido. Dizem que no “começo era bom, mas depois o encanto acabou”. Agora elas querem curtir a vida, jogar para fora a repressão a que foram sacrificadas durante o convívio do casamento. O jeito, para esses casos, é cair na noite e nos bares da vida. O problema, Dr. Francisco, é que em sua Carta-Proposta não ficou explícito se ela se destinava a mulheres que nunca haviam casado, ou para aquelas já passadas na experiência matrimonial.
Uma outra categoria feminina, a quem a Carta-Proposta foi lida, a faixa de 20-30 anos, reclamou contra o tipo de música exigido pela firma Salvação S/A, “um fundo musical suave e ameno” para a demonstração dos modelos nos sábados à tarde. A maior parte acha-se envolvida com Daniela Mercury e a “axé-music”. Tentei explicar se poderia ser “Sophisticated Lady” ou qualquer Jazz de Duke Ellington. Não sabiam nem quem era. Desconheciam os Concertos Românticos de Vivaldi, Benny Goodman e até Ray Conniff. Apelei para os nacionais e as moças rejeitaram de Paulo Moura a Pedrinho Mattar. O máximo de cessão feita para o fundo musical foi os “Pet Shop Boys” e “Pink Floyd”. As jovens na faixa de 20-30 anos, raramente gostam de Whisky e música suave.
As feministas mais radicais, ou melhor, sectárias, não querem ouvir falar em pais para seus filhos. Concluem que as novas técnicas de inseminação, os filhos da masturbação, ou melhor, de proveta, resolvem o caso da procriação. “Quero um filho só meu”, afirmam. A maioria dessa categoria “neo-Betty Friedmann” supõem a figura masculina absolutamente desnecessária, exceto no laboratório. São mulheres independentes e cospem a proposta de dez salários-mínimos do “Consórcio para casamento”.
O problema, Chiquinho, é que o número de descasamento está aumentando assustadoramente, em nível planetário. O número de separações aumentou 137% da década de 80 em relação à de 70. Mais da metade das crianças de hoje, no Brasil, são de pais separados. O IBGE, em 1988, constatou que 31,3% das mães eram solteiras. Os últimos dados do Fórum da Comarca de S. Paulo mostram um aumento de quase 100% nesses números. Está todo mundo fugindo do casamento, Chiquinho. Daí ser difícil o emplacamento da Proposta. Isso não implica que os seres estejam em busca de suas completudes, à procura da cara metade. A questão, ao meu ver, Chiquinho, é que os moldes do casamento burguês, do século XIX, tornam-se incompatíveis cada vez mais com a louca dinâmica da Sociedade de Consumo, da Sociedade Pós-Industrial. O cibernético corre-corre torna as relações humanas mais tangenciais e supérfluas. Hoje, o negócio é “ficar”. Entrar em “rolo”, namorar, ter paciência, discutir, são produtos do passado para os quais a nova era tem novos substitutos. Tudo é fugaz, no tempo da informática, somos um rosto na multidão, as verdades não duram meia-hora, a notícia perde a graça em 24 horas e como uma entidade durável como o casamento, entra nessa história? – Pois bem, Chiquinho, a “Proposta para Casamentos”, da firma Salvação S/A, não contempla o tempo de garantia do modelo-marido-objeto-de-uso. Muitas interessadas vão perguntar o tempo de garantia. Senão a coisa fica muito mecânica, a là Masters-Johnson (casal que por sinal se separou), muito laboratorial.
Na Carta-Proposta diz-se: “contra falhas primárias, reposição do móvel”. Taí uma boa medida para quem aceitar. Você sabe, Chiquinho, que a impotência masculina, incluindo a ejaculação precoce, vem aumentando em progressão geométrica. Está todo mundo apressado até no amor. Mas como os modelos são revisados e garantidos, tudo bem.
Entretanto, surgem perguntas – as interessadas podem substituir o modelo por seu exclusivo desejo e vontade? Quem garante que o modelo “revisado e garantido” satisfaz a certo tipo de interessada? Em caso de problemas com a assistência técnica do marido, poderá haver reclamação ao Procon-Defesa do Consumidor?
Li o “Consórcio para Maridos” para algumas mulheres definidamente heterossexuais e ainda à procura da cara metade. Isaura Helena, por exemplo, contestou peremptoriamente: “Homem já é um animal complicado, imagine no consórcio”. Outras, como Marília, não aquela de Dirceu, solicitou de forma radical, que os modelos de marido, constassem na Carta-Proposta não serem alcoólatras, pois as mulheres já sofrem demais, desde as sentenças bíblicas do Gênesis, por causa do álcool etílico. E as exigências foram tantas, nas mulheres descompletas, que não sei como enumerá-las: que se vestissem bem com roupas de grife, usassem perfume Pólo, não tivessem barba, vestissem cuecas Zorba ou sei lá o quê. Nem uma reclamou ou perguntou se os modelos-objetos-de-marido gostavam de Drummond ou de Manuel Bandeira.
Como vê, Chiquinho, mesmo nas enormes dificuldades atuais, as mulheres são exigentes quanto à aparência física. Antigamente, o sexo dito frágil “não casava com carrapato por não saber qual era o macho”, como afirmava o velho provérbio. Agora, não. O importante é o físico, a cor dos olhos, o formato das nádegas, o jeito da boca. As mulheres mudaram, amigo. Aí está o problema.
Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 20/04/2006
Código do texto: T142224
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais