Mimi, a Gatinha que Ri

Muitas vezes, somos surpreendidos por fato que jamais imaginaríamos o tamanho de sua importância.

É o caso da existência de uma gata que, de forma dócil e alegre, chega bem pertinho quando alguém invoca Mimi. Existência por demais importante para a vida de um companheiro de trabalho.

Era uma bela tarde de início de inverno. Numa igrejinha celebrava-se o casamento de Francisco, nome que o pai lhe dera como gratidão ao rio que banhava a cidade de onde fizera, por escolha própria, o seu mais recente movimento nômade.

A maioria dos presentes deveria estar se sentindo curiosa ou incomodada com as razões que levaram os noivos a escolher Mimi como par para o sobrinho de Francisco, que caminhava em direção ao altar levando as alianças, orgulhoso e compenetrado.

Para sua irmã e para meia dúzia de amigos mais íntimos era mais que justo e razoável.

Lembrei-me de um fim de expediente de trabalho e da expressão estampada no rosto de Francisco. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de minha mesa de trabalho e desandou a falar:“mano velho, companheiro “porreta”, encontro-me numa situação como aquela em que uma bruta cólica nos aperta e é urgente aliviar.”

Percebi que deveria: interromper minha organização de final de dia de trabalho; adiar meu retorno para casa; e permanecer ouvindo sem fazer qualquer interrupção. Assim foi feito e Francisco continuou aliviando.

Vez por outra visito minha irmã, que adotou uma gata – Mimi. A gata foi adotada a partir do dia quando surgiu muito mal tratada e com todo o corpo tomado por queimaduras.

Sei que deves estar pensando: mas porque Mimi leva-me à necessidade de aliviar?

O fato é que apesar de perceber a extrema docilidade de Mimi, não conseguia acariciá-la, motivado por um receio de ser agredido. Era como se alguma coisa dentro de mim avisasse que seus dentes e suas garras estavam se preparando para me atacar.

Sabemos que se não existem causas objetivas. São causas subjetivas que justificariam aquele receio.

Os miados de Mimi sempre têm objetivo ou de pedir ou de reclamar. Mia para pedir: para passear; para comer; para que escovem seu pelo; e principalmente para que lhe façam afagos.

Mia para reclamar quando alguém pega ou usa alguma coisa do lar de quem a socorreu, a adotou e a protege.

Extremamente comunicativa, Mimi mia o dia todo, ou seja pede e reclama a cada hora.

Os miados de Mimi testemunharam as visitas que fiz a irmã do peito, que foram sempre acompanhadas pela pergunta: que causas subjetivas existiriam para aquele medo irracional?

Percebi que fizera muito bem em adiar meu retorno para casa e me transformar no melhor dos ouvintes.

Ansioso, como se não quisesse perder tempo nem para respirar, continuou: numa dessas visitas, contemplava os olhos amarelos de Mimi com suas pupilas verticais negras e lindas, quando me surpreendi afagando seu pelo rajado de grafite e amarelo limão. Súbito, como um raio, fui invadido por imagens distantes.

Francisco, companheiro de trabalho, que sempre refletia franqueza e espontaneidade, passou a ter uma expressão semelhante ao enxadrista quando não consegue dissimular as jogadas que antecedem o “cheque mate”. Como se quisesse preparar o ambiente para finalizar aquele desabafo, passou a contar fatos de sua vida.

Tivemos uma vida nômade em função da profissão de meu pai. Uma das nossas primeiras mudanças nos tirou de uma ilha paradisíaca do nordeste para um subúrbio do Rio de Janeiro.

Foi muito fácil perceber aquela alteração na forma de falar, quando somos tomados pela emoção. Entretanto, nem isso o fez fazer uma pequena pausa para respirar mais fundo e garantir a continuidade do desabafo.

Acredito que ainda nem completara meus quatro anos, mas foi naquela ilha que um gato, Pio, cópia da Mimi, foi meu companheiro, segurança, meu melhor brinquedo e até o confidente das fantasias naturais que elaboramos naquela fase da vida. Com a viagem necessária àquela mudança, a separação, a perda e o sofrimento.

A invasão dessas imagens distantes indicou não só as causas subjetivas para meu medo irracional diante da imagem da dócil Mimi, mas, também, para minha forma solitária de viver. Venho vivendo da mesma forma que Mimi que, escaldada ficou com medo de água fria.

Levantou-se da cadeira, abriu os braços e com aquela expressão de quem havia aliviado as cólicas, continuou em risos: mano velho, companheiro porreta, é como estivesse nascendo outra vez! Encerrei uma espécie de inverno instintivo e estou iniciando uma primavera colorida pela razão.

Fora impedido de escutar o sim do companheiro Francisco por minhas lembranças daquele final de expediente. Lembranças interrompidas pelo seu sobrinho, muito mais descontraído de quando entrara, passando em frente ao banco em que me havia acomodado. Mimi, disciplinada e com a elegância felina, reduziu seu ritmo, olhou para minha direção, esboçou um movimento como se fosse miar, mas em vez disso, altiva, sorriu como quisesse, em vez de pedir ou reclamar, demonstrar estar ciente de sua importância para vida de Chico.

Mimi

Mimi gata escaldada

tem medo de água fria,

mia por quase nada

e por tudo também mia.

Mimi é uma gatinha,

que mia para pedir,

mia pra ser maquiada,

e pro colo dormir.

Miados pr’aqui,

miados pra lá,

Mimi gatinha esperta

só falta falar.

Mimi gatinha esperta

só falta falar.

Mimi é uma gatinha,

que quase fala e ri,

nada aprende, mas ensina

que quem chega, vai partir.

Mimi é uma gatinha,

que mia pra reclamar

sai que essa cama é minha,

e é bem outro o teu lugar.

Miados pr’aqui,

miados pra lá,

Mimi gatinha esperta

só falta falar.

Mimi gatinha esperta

só falta falar.

J Coelho
Enviado por J Coelho em 10/02/2009
Reeditado em 29/06/2021
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