Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Sozinha

Acordei com medo, frio... me sentindo tão insegura, tão indefesa... Não quero levantar. A chuva e o aconchego dos lençóis me dão a sensação de que estou protegida, amparada e segura. Mas o mundo lá fora me espera, com todas as inquietudes da vida cotidiana.

Me recuso a me sentir frágil, a expor meus medos, minhas neuras. Levanto...visto minha fantasia de garota globalizada. Aquela fantasia de auto-confiança, de atitude independente, estilo “...sai da minha frente que eu vou passar...”. E sigo meu caminho. Não sei para onde vou nem o que vou fazer, apenas sigo. E como em toda sociedade de consumo, vou às compras. Olho vitrines, observo suas modelos, seus corpos parecem robotizados, suas almas cristalizadas numa onda consumista. E continuo meu passeio, sem rumo nem prumo.

Quero comprar, não sei o quê, apenas quero. Busco, nada encontro. Parece que nada me atrai. De repente, um sentimento de vazio me invade. Me vejo perdida, procuro minha identidade e vejo múltiplas faces e nuances de uma mesma pessoa. Os espelhos da sociedade organizada não refletem a minha imagem à semelhança do que sou. Eles metem descaradamente. Me desespero. Não quero fazer parte de um mundo robotizado. Quero minha identidade de volta. É aí que me dou conta que minha busca está apenas começando. E sigo, na vã ilusão de que se eu mudar o estilo de vestir, vou me reencontrar...Ah! Doce ilusão. Chego à triste constatação de que roupas não definem personalidade, definem sim um esteriótipo construído no imaginário coletivo, que enquadra o ser humano nos padrões de comportamento de uma tribo qualquer. Continuo perdida, "caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento".

E vou seguindo... olhos atentos aos passantes. Vejo pessoas comuns, com sonhos comuns, interesses comuns e... tantas outras coisas em comum. Me vejo só, no meio daquela multidão. Sinto-me “como um peixe fora d´água” e percebo que algo está fora de contexto e, sou eu. Me vejo sem rumo, fora de sintonia com esse mundo que me cerca até que decido voltar para casa e percebo que tenho um grande desafio: Me encontrar.

Chego em casa. Sorriso sem graça... e explico que nada comprei, porque o mercado estava escasso. Porque lá não vendia pacotes de amor, carinho... Tento explicar que o sorriso simpático da vendedora não acompanhava o produto, porque ela precisaria dele para a próxima venda; a amizade também não estava lá; nem mesmo pacotinhos de ternura eles tinham disponíveis; eles também não tinham componentes eletrônicos de última geração que ajudassem a formar cidadãos éticos... “Ainda não inventaram esse produto”, me explicava frustado, o promotor de vendas. Colo de mãe também não tinha e, o moço bem que tentou me vender um travesseiro novo, afirmando seguramente que fazia o mesmo efeito, e com a vantagem de que não tinha que ouvir sermão.

Mas ainda assim, foi um dia especial... não consegui comprar o que queria, porque aquilo que desejo não tem preço. Porque Respeito, Dignidade, Ética, Solidariedade, Sorriso, Amigos, Carinho e Amor... não estão à venda. E sigo meu caminho sozinha, com as mãos vazias sim, mas de peito aberto em busca de mim mesma.


Boston, 02 de Maio de 2005 – 23h23mim. 

PS. Há exatamente um ano ingressei no Recanto das letras e esse foi um dos primeiros textos que publiquei na minha escrivaninha. Hoje, o trago de volta, não por vaidade, mas pela alegria de perceber que as diversas releituras que fiz de mim mesma ao longo dessa tragetória, não apagaram a solidez das minhas convicções. Os medos parecem ser ainda os mesmos, mas minhas esperanças se renovam dia após dia. 

Muito obrigada aos que souberam tocar meu coração com cuidado e carinho. Foi isso que me fez permanecer aqui.
Sandra Mara
Enviado por Sandra Mara em 26/04/2006
Reeditado em 30/11/2007
Código do texto: T145824

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Sandra Mara
Estados Unidos
84 textos (12087 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 18:09)
Sandra Mara