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Edgar, o cidadão



Aquela dorzinha no peito vinha incomodando Edgar há dias. Não sabia a que atribuir o fato. No trabalho, já não conseguia se concentrar como antes.

- É, chegou a hora de procurar um médico. Sei lá se estou com pressão alta... Engordei muito. Notei pelas minhas calças, pelas camisas que não abotoam... Amanhã, vou ao clínico do posto de saúde lá na Rua do Pavilhão.

No dia seguinte, acordou bem cedo e foi para a fila de espera no referido posto. Quando chegou sua vez de ser atendido, foi informado de que teria que esperar o turno da tarde, pois o da manhã já havia terminado. Edgar esperou, e à tarde não houve atendimento por motivo de "força maior".

No dia seguinte, saiu cedo, cumprindo o mesmo itinerário. Ao chegar, ouviu da atendente:

- Há excesso de pacientes para poucos profissionais, o senhor volta outro dia. Lá pra semana que vem...

E chamou o próximo da fila. Ele, então, decidiu ir para outro posto, e, lá, ficou sabendo que o local estava praticamente desativado. Olhando ao redor, viu infiltrações nas paredes, cadeiras quebradas e poucos profissionais. Pacientes aguardavam sua vez numa passividade que incomodou Edgar. Após cinco dias de peregrinação, conseguiu atendimento num posto da periferia. Foi examinado, e muitos exames foram solicitados para investigar a causa da dor no peito. Sua pressão arterial estava alta. Comprou os medicamentos prescritos pelo médico, e procurou se informar sobre os locais onde pudesse realizar seus exames. Por mais que tentasse, não conseguia uma informação efetiva. Ia de um extremo a outro, e as negativas o exasperavam. As desculpas eram as mesmas: agendas lotadas, falta de material, de profissionais, aparelhagem em mau funcionamento, e má vontade. Enfim, após um mês havia conseguido fazer apenas metade dos exames solicitados.

Os dias seguiam, Edgar continuava trabalhando, tomando os medicamentos prescritos, e sua via crucis não tinha fim. Os exames que faltavam fazer, segundo comentários, eram caríssimos. Começou a se questionar por não ter feito um plano de saúde. Sempre lera que Saúde e Educação eram dever do Estado. Por que tudo parecia tão difícil? Pagava seus impostos, cumpria seus deveres, e, agora, não tinha do Estado o que a Constituição lhe assegurava.

Edgar não conseguia dormir, passava a noite rolando na cama, pensando no que fazer para pagar os exames. Um empréstimo no banco? Não conseguiria o suficiente. Recorreria, então, aos agiotas, e tudo se resolveria. Não sabia direito sobre os juros da agiotagem, mas não tinha outro recurso para a questão que o afligia.

E começou sua procura, através desses caminhos tortuosos.

No dia vinte e três de dezembro, Edgar acordou na madrugada, com forte dor no peito. Foi levado ao hospital mais próximo, atendido pela equipe de emergência e, em quinze minutos, estava morto. Sua esposa, estupefata, narrou aos médicos as ocorrências anteriores, mostrando as solicitações de exames que não conseguiram realizar. Os médicos disseram que somente aqueles exames teriam detectado a doença dele, e, provavelmente, evitado morte tão prematura.

Edgar, o cidadão, partiu aos 34 anos, vitimado por "falência do direito de cidadania".



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belvedere
Enviado por belvedere em 27/04/2006
Código do texto: T146147

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Sobre a autora
belvedere
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