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Primavera

Primavera

Dizem que a primavera é um eterno recomeço. Para Bia foi realmente. Eu sei que vai ser difícil para o leitor acreditar na história de Bia. Mas é absolutamente verdadeira. Essa pobre mulher estava aprendendo a dirigir, e, foi passear perto de um lago, com o marido e três filhinhos. Aliás, era o marido que ia na direção. Foi ele quem insistiu muito para Bia pegar no volante, dizendo que a estrada estava vazia, que ela precisava ter coragem e começar a levar o carro. Não tinha tirado a carteira? Por que o medo?

E Bia, infelizmente, foi convencida. Ia começar ali uma das maiores desgraças que eu já tinha ouvido falar: insegura, se tremendo toda, quando teve que passar por uma ponte, Bia jogou o carro no lago. Não deu tempo do marido fazer nada. E daí em diante, Bia não se lembrou mais o que aconteceu. Quando acordou estava num hospital, não tinha um arranhão. Mas melhor que tivesse morrido.

Seu marido  e seus três filhinhos, um garotinho e duas meninas, tinham ficado lá no fundo do lago. Nenhum  sobrevivera e nem mesmo tinham sido resgatados quando Bia soube da desgraça. Além da dor de ter perdido não um, nem dois entes queridos, mas quatro pessoinhas, toda a sua família adorada, Bia ainda sentia uma culpa, que varava seu coração como uma faca pontuda. Parecia que ela tinha assassinado seu marido e seus filhos. Era demais para ela, e Bia perdeu a razão. Ficou “maluquinha da Silva”. Sua mãe pegou a pobre dando banho em uma bonequinha, chamando a boneca pelo nome de uma das filhas que morrera. O único jeito foi internar Bia num sanatório.

E quem acredita em milagres, vai gostar do que aconteceu. Havia um psiquiatra que tinha perdido a mulher, com câncer, também fazia pouco tempo. E ele se apaixonou por Bia, teve uma pena infinita dela, e passou mais de um ano dando toda a atenção a ela, mas numa relação exclusivamente médico e paciente. Uns anos depois, com a primavera, os dois recomeçaram a vida. E, acreditem ou não, hoje Bia tem mais três filhos lindos. Não que eles tenham substituído os que se foram, de modo algum. Apenas, como na terra, na natureza, novas flores foram surgindo no lugar em que as outras se foram.

Sempre penso em Bia. Se existe uma mulher com tal sina e tal recuperação, que são meus problemas em vista dos dela? E assim, vou seguindo acreditando que “em primavera eterno começo, primavera, sei que mereço, ser um pouco feliz, sem pagar alto preço”...

Lilia Barcellos
Enviado por Lilia Barcellos em 28/04/2006
Código do texto: T147046
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Sobre a autora
Lilia Barcellos
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil, 70 anos
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