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A fome é sempre mais importante

Certo dia,andando na rua,falando animada no celular com uma amiga, algo me chamou atenção.
Percebi em uma mulher,devia ter uns 35 anos.Morena clara, cabelos longos e negros e um olhar desesperado.
Ao seu redor percebi 4 crianças.A mais velha deveria ter uns 8 anos e a mais nova, alguns meses.
Parei o que estava fazendo quando uma das crianças, veio até mim com uma expressão triste e falou tão baixo que eu mal ouvia:
-Tia...Me dá um trocado...
Guardei meu celular dentro da bolsa,peguei minha carteira e justo naquele dia eu não tinha nenhuma moeda e nenhuma nota de 1 real ou quem sabe 2. Só o que tinha eram duas notas de 50 reais, que eu havia tirado do banco no dia anterior e que já estava comprometida com uma dívida.
Me abaixei a fim de ficar do tamanho da criança que me pediu o dinheiro e pouco depois as outras vieram também acompanhadas da mãe que carregava o bebê nos braços.
Levantei da posição em que estava,e vi quando a mãe olhou para as crianças e falou:
-"Vamo" embora...Eu já falei pra "oces" não "incomodá" as "pessoa" que passam na rua. - e voltando-se a mim. - Desculpa moça.
Sorri para a mãe que tentava acalmar o bebê que começara a chorar naquele momento e então pedi:
-Posso segurá-lo?
Ela me olhou meio desconfiada e me deu a criança.
Peguei-a nos braços.Era uma menina.Se chamava Vitória.
Ela continuava a chorar enquanto eu, sem nenhum tipo de experiência de como fazer para o choro cessar,apertei-a devagar contra meu colo e comecei a cantar bem baixinho uma musiquinha que mamãe cantava para mim quando pequena.
O choro foi diminuindo,até que parou. Devagar eu a devolvi para a mãe que sorria e me agradecia.Mas agradecer pelo quê? Pensei então.
Olhei em volta e vi grandes sacolas com algumas roupas, alguns pertences e perguntei:
-Estas coisas são de voces?
A mulher meio envergonhada, olhou em volta e falou:
-Sim...é nossas coisa.Foi as únicas "coisa" que nos "sobrou" da enchente de ontem.
Olhei para a mulher sem saber o que dizer e sem saber o que fazer quando lembrei do dinheiro que eu tinha na carteira.
Quando eu entreguei aquelas duas notas de 50 reias para a mulher a mesma só faltou ajoelhar-se para agradecer.
-Não quero que faça isso.- Eu disse. - Quero que dê o que comer para os seus filhos e que lute para conseguir recuperar o que a enchente levou. Não conseguimos nada se não lutarmos.
A mulher me beijou na face e esse foi o último gesto que me fez naquele dia.
Voltei á minha realidade e voltando ao meu caminho tentei lembrar no quê eu iria usar aquele dinheiro.Não consegui e nem tentei mais.Apenas continuei caminhando.
"Seja o que for, não é mais importante que a fome."
Deia Tumenas
Enviado por Deia Tumenas em 02/05/2006
Código do texto: T148970

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Sobre a autora
Deia Tumenas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 30 anos
217 textos (16392 leituras)
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Deia Tumenas