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NOITE DE NUPCIAS DE UMA PARAPLÉGICA

Passavam-se os momentos, e a cada vez mais ele me estreitava em seus braços, desarrumando meus cabelos, sorrateiramente, beijando-me o rosto, olhos, ombros e seios já túrgidos de prazer. Em silêncio, louca de emoção, esperava os momentos seguintes, deixando-me ficar longe da terra e perto do céu. Sua voz ofegante em murmúrios, o rosto másculo a participar de minha fragilidade, transportavam-me ao passado. O cérebro fremia em desejos, mas, genitalmente, nada correspondia. Os estímulos perdiam-se no caminho. Não executavam as suas tarefas. A região estava extremamente distante, alheia...

Enquanto um terço do corpo sacudia-se extasiado, trêmulo em busca da apoteose, o resto, morbidamente deitado, parecia não ser meu. E aquela sensação apaixonada, estonteante, alucinante, que me sacudia todo o corpo, fazia pulsar minhas entranhas no desejo da culminância total, não mais se fazia sentir. Eu estava morta dos seios para baixo. Não sentia a vulva intumescer-se, pojar, ficar fremente, rubra feito uma almofada de cetim para receber o pênis do marido numa fusão de amor, transcendência, dádiva e carinho como ocorria antes.

Mas fizemos amor completo, tendo em vista eu não carecer de ereção para o desempenho.

Não sentira orgasmo e o órgão genital não se preparara para cópula. Não se lubrificara, dificultando a penetração que tivera que contar com a ajuda de um lubrificante íntimo. Eu estava virgem outra vez! E o Alfredo esflorara-me o hímen. Talvez, fosse um privilégio a idéia conotada.

A natureza é mesmo perfeita e o sexo é a sublimação do amor, o berço do eterno renascer... O berço da vida humana. Por isso cada um de nós foi feito de amor e por meio do amor numa doação coroada.

O sexo não deve ser profano e o seu desempenho chega a ser místico, feito uma cerimônia litúrgica. Afinal foi Deus o seu criador.

Mesmo tentando acreditar e evidenciar os valores armazenados, não pude deixar de sofrer. Era a minha primeira noite de amor diferente.

Assim não pude evitar o pranto. Ultrapassei minha margem de paralax. Dei vazão ao sentimento. Deixei que as lágrimas escorressem pela face, apascentassem a minha alma, indicassem caminhos... O que fazer? Havia sido muito feliz e podia afirmar que os filhos vieram ao mundo, frutos de grande amor. Restava-me, ainda, agradecer! Fisicamente podia satisfazer o marido e descobrirmos juntos outras maneiras, outros pontos eróticos que não me deixassem a ver navios.

Com certeza, essa marcante primeira vez, essa cumplicidade nupcial de uma paraplégica, foi a primeira aula para o exercício de uma vida inteira. Teria mesmo que aprender outras maneiras de dizer o indizível, ouvir o inaudível e sentir a manifestação da libido. O clímax mudara de endereço e o orgasmo derramava-se agora pelo olhar, pelo olfato, pelo pranto, pelo suor, confirmando-me ainda a condição de fêmea.

Na mulher não há problema visível de potência, o que é lógico, pois a natureza criou-a assim. Seu órgão genital é côncavo, enquanto o do homem é convexo, proeminente, próprio para o encaixe, levado pela libido que lhe dá ereção e os enleios de prazer que envolvem mente, sentimento e pele.

Ainda haveria saída para mim. Não iria viver só de lembranças, poderia garantir. Usaria a fantasia, a força mental enquanto não encontrasse soluções dignas para tão grande perda.

Por vezes, os meus sonhos eram povoados pelo passado ainda tão recente, tão presente nas minhas lembranças, na minha fantasia. A libido estava muito machucada, mas a pisque vasculhava sem piedade os arquivos impressos na memória, à procura de outra alquimia.

O desempenho sexual envolve o comando cerebral, medular e periférico, além das formas físicas do côncavo e do convexo.

A medula, o nosso tecido mais nobre, que se encontra preenchendo o conduto da coluna vertebral em forma de tutano, é a responsável, em sua parte anterior, pela transmissão dos movimentos locomotores e na parte posterior pela transmissão da sensibilidade. Se sofremos secção total da medula por tiro, acidente ou até mesmo por vírus, teremos enclausurados os movimentos locomotores, bem como a sensibilidade que é substituída por macabra dormência e a sensação gélida da Antártida.

Mesmo assim, apesar de estarmos deficientes, fisicamente estamos vivos. Resta-nos o cérebro pensante, criativo e, por vezes, escandalosamente sensual.

A mulher paraplégica conserva a condição de fertilidade, o que me certifiquei, compulsando compêndios de estudos médicos.

A vida pode continuar e vai continuar! Vencerei todos os obstáculos, mesmo que seja a duras penas, pois quem não vence problemas não sente o prazer de viver (palavras de Alfredo). Depois, sempre ouvi dizer que o amor constrói. Amor é o que não falta entre nós.

O amor é um sentimento lindo! Daí, por consequência, a sublimação na união de corpos, mistura de genes, transferência mútua de energias que nos renovam sempre o prazer de viver, além da multiplicação da espécie que nos confere o poder de criadores, enfeitando o lar de anjinhos risonhos.

Com a ajuda do Alfredo, galgarei todos os horizontes, conquistarei todos os mundos. Farei fantasias, engendrarei versos, serei doce feito mel e suave como a brisa, deixando meus retalhos eclodirem em sexo sublimado, querido, perfeito e maior do que todos, mesmo ajudado por minhas formas adormecidas. Serei vulcão ou bonança, lágrimas ou sorrisos para a festa do meu amor espiritual, transcendente, mas também carnal.

Preencherei as lacunas do vazio em mim, a cada amanhecer, a cada estrela cadente, assim como viverei com intensidade cada dia, não deixando nada para depois, na eterna consciência de que do outro lado todos seremos perfeitos, nenhum mutilado.




Genaura Tormin
Enviado por Genaura Tormin em 07/05/2006
Reeditado em 17/01/2012
Código do texto: T152147
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Genaura Tormin
Goiânia - Goiás - Brasil, 71 anos
311 textos (395887 leituras)
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Genaura Tormin