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Requiem às Lágrimas de um Paquistanês

Sou reticente e cautelosa com palavras, elas são escorregadias, volúveis, multifacetadas... requerem um enorme domínio sobre elas para expressar pensamentos, o que dizer então de sentimentos que fogem ao código da razão. E se a palavra pertence a um outro idioma, aí a dificuldade de expressar corretamente é ainda pior.

Mas, ao mesmo tempo, palavras são o que temos de melhor e mais imediato para comunicar com outros, mesmo com aqueles que nem nos conhecem, com aqueles que distraidamente cruzam o nosso caminho, muitas vezes sem siquer deixar suas marcas.

Admiro, deste modo, aqueles que colocam as palavras corretas nos lugares corretos para expressar claramente o que pensam, o que sentem. Eles têm o dom de nos marcar, além do tempo e do espaço.

Outro dia cruzei o caminho de um desconhecido, ou melhor, cruzei o sinal do seu rastro deixado por ele há meses atrás. Ele provavelmente não sabe que estive no seu site, como possivelmente não sabe quantos leitores ele já teve. Mas as suas palavras estão lá... para quem queira ler, indiferentes a sentimentos que possam provocar, conforme a origem, religião ou cultura de cada leitor.

Falo de um jovem paquistanês, vivendo num país muçulmano e em cerrada disputa territorial, religiosa e ideológica com o seu vizinho Índia. Ator e espectador impotente das atrocidades praticadas a nível mundial contra o povo da sua religião que por sua vez tenta revidar com igual crueldade, este jovem registrou a sua comoção que sentiu ao ler uma notícia nos jornais, vertendo lágrimas de sangue sobre o corpo de um outro jovem morto por engano no metrô londrino. O jovem morto não era paquistanês nem era muçulmano, mas foi morto por homens de lei apavorados com a idéia de novos ataques terroristas no seu país.

Todos sentimos indignação quando soubemos do ocorrido, o morto era um brasileiro. Mas... quantos de nós realmente choramos por cada jovem - não importa a sua nacionalidade, cor, religião, classe social, cultura... - que perde a vida (orgânica, mental, emocional) vítimas do jogo de poder e de interesses econômicos que patrocina todas as lutas armadas?...

O jovem paquistanês escreve em inglês... mas soube descrever com poucas palavras o tamanho da sua dor e compaixão por todos que sofrem.

Neste mês que celebramos o Dia das Mães, deixo aqui as palavras desse jovem para a mãe de Jean Charles de Menezes e também para todas as mães do mundo que sofrem por seus filhos.

"(...) Why should anybody suffer for the deeds of some sinners...?
 
Why...? Can anyone answer...? Can anyone at least feel my pain...? Can anyone feel his pain...? Can anyone feel his brother's pain...? Can anyone at least imagine his mother's pain...? Can Anyone...?
 
What a World... What a beautiful world...!
 
I can't do nothing but pray..., pray for the people, for the "Death of Tyranny"... But I guess, it's the Human Nature to destroy everything in it's power... Then again, I guess that's Evolution..." (por Sic Semper Tyrannus)

(Tradução livre:

(...) Por que alguém deveria sofrer por obra de alguns pecadores...?

Por que...? Alguém pode me responder...? Pode alguém ao menos sentir a minha dor...? Pode alguém sentir a dor dele...? Pode alguém sentir a dor do seu irmão...? Pode alguém ao menos imaginar a dor da mãe dele...? Alguém pode...?

Que mundo... Que mundo lindo...!

Nada posso fazer a não ser rezar... rezar pelas pessoas, pela "Morte da Tirania"... Mas eu desconfio que é da Natureza Humana destruir tudo em seu poder... Então, de novo eu desconfio, que isso é Evolução...)

Clary
Enviado por Clary em 10/05/2006
Código do texto: T153800
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Sobre a autora
Clary
São José dos Campos - São Paulo - Brasil
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