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O ADULTÉRIO E O DORMONID ( PÍLULA PARA DORMIR)


Havia um tempo, não muito longínquo, em que as mulheres que infligiam o sétimo manda-
mento-“Não trairás”- eram consideradas pecadoras. Execradas. Submetidas aos ditames das
leis cíveis e condenadas. Hoje, com os novos ventos e os novos tempos, o marido traído é o
responsável: falta de assistência, grosserias, traições, amigos da noite boêmia, ciúmes exagerados e alguns outros pecados veniais em relação à companheira.
Recordo-me de uma estória (como diria Câmara Cascudo) dos meandros da década de setenta no século passado:exatos l978. D. Glória foi a um cardiologista com sintomas de pânico: embrulho no estômago,perda de fôlego, coração disparado e fora do compasso,tonturas, pinicão nos braços e pernas, ondas de calor e frio no corpo, além do medo de morrer e ou enlouquecer.Os cardiologistas, como sempre, fazem mil e um exames e. como contumaz, ou nada dizem ou prescrevem tranqüilizantes. Mas nunca, ou quase de rotina, nunca afirmam ou explicam os ataques de pânico, de duração curta (em média quinze minutos). D. Glória foi mais uma vítima dos tranqüilizantes de curta duração, os
quais causam enorme dependência .O sono é em torno de três a quatro horas e é comum mais doses para toda a noite.
D. Glória ingeriu o Dormonid e pôs-se a dizer asneiras, como se tivesse tomado o “soro da verdade”, igual aos que os soldados americanos fazem nos prisioneiros iraquianos na Base de Guantânamo .Em estado de semi-consciência, torpor, abraçou-se ao marido, como se estivesse com seu amante, o Osvaldão.Beijou-o como nunca havia beijado, praticou amores nunca antes fornicados,como se a confusão mental ,devido ao Dormonid, a levitasse aos prazeres indescritíveis do amor profano.
E o marido, Fernandinho, percebendo o estado confusional, escutou a frase :” Osvaldão, meu amor,amanhã , o Fernandinho sai para a Petrobrás às duas da tarde...volta  às sete da noite...esse amor de hoje não vale um décimo do de amanhã”.O marido puxou conversa e pouco a pouco, no diálogo onírico, montou a sua realidade.Estava sendo enganado há quase um ano. Mesmo assim fizeram sexo como nunca. Foi quando raciocinou: “O Osvaldão até que me trouxe felicidade. Nunca tive  noite assim...”.
Conflitado, no dia seguinte, às 14:30 hs , atrás das lojas Americanas, o marido junto a um escrivão de polícia seguiram D. Glória até o motel, quando foi lavrado o ato de adultério.
Dissolvido o casamento, Osvaldão mudou-se para local ignorado e não sabido.D. Glória ficou sem a guarda dos filhos, acometida de profunda melancolia. E menos de seis meses  se passaram.
No dia em que completariam sete anos de casados, Fernandinho, sabedor da situação da antiga companheira e cansado de tanto trabalho com as duas filhas, Kátia e \keren, resolveu procurar D. Glória. Encontrou-a. Pediu-lhe que voltasse, com todo perdão e que fizesse amor, como naquela véspera do Dormonid, mesmo pensando no Osvaldão. Pacto firmado, estão juntos até hoje. A única exigência de D. Glória foi a colocação do retrato do ex-amante na cabeceira do leito conjugal.
Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 12/05/2006
Código do texto: T154855
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais