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Diga-me com quem comes e...


Talvez por ser praiana, quente e ter um povo amigo e comunicativo, Santos sempre me faz lembrar de aperitivos, petiscos e bate-papo, embora atualmente ande difícil conseguir reunir, ao mesmo tempo, os ingredientes fundamentais para essas atividades tão agradáveis.

Explico e justifico: sempre acreditei que os livros de receitas culinárias, além de indicar ingredientes e formas de preparo, deveriam informar o tipo de companheiros e o local ideal para degustar cada prato. Afinal, assim como é sabido que uma boa conversa valoriza qualquer prato, este pode ser posto a perder irremediavelmente por um companheiro chato, ou, o que é pior, pela falta de alguém com quem conversar.

Nos bares, se tivermos sorte de encontrar bons petiscos e bons companheiros, os telões e os karaoquês (argh!!) nos impedem de ouvir e de sermos ouvidos. Quando encontramos um lugar mais sossegado, nossos amigos resolvem lembrar da violência crescente e acabam por preferir ficar em casa espiando a vida dos outros, em companhia de um delivery qualquer, nos condenando a ficar tentando um diálogo fracassado com um bolinho de bacalhau ou com uma turma de batatas fritas.

Comer e beber sempre foram para o ser humano atividades sociais prazerosas. Por outro lado, uma boa conversa e uma boa companhia, mesmo quando a fome não é muita, pede sempre uma bebidinha e um petisco como acompanhamento. Na verdade, o que se discute é quem acompanha o que: se é o petisco que acompanha o papo ou se o papo desperta o apetite.

O que se sabe com certeza é que em qualquer cultura, e em todos os tempos, encontra-se pequenas receitas criadas com a clara intenção de acompanhar uma boa conversa de amigos.

As tapas espanholas, os acepipes portugueses, os nossos tira-gostos, ou seja lá como forem conhecidas tais receitas em outras regiões do mundo, são sempre bem temperadas e servidas em bocados pequenos de fácil execução, certamente para que não atrapalhem a conversa de ninguém.

Não raramente essas pequenas obras-primas são servidas como entradas, como prato único ou até como sobremesa (e por que não? Queijos e frutas secas são ótimos petiscos), sob alegação de esticar por mais algumas horas o prazer da última, ou melhor, da penúltima taça de vinho ou cerveja.

Como apreciador destas duas grandes invenções (o papo e o petisco), defendo ainda que se deva aproveitar estas oportunidades para preparar estes petiscos de ‘‘próprio punho’’ ou até em mutirão, curtindo com antecedência os bons momentos que virão, fazendo ainda com que o petisco, sua receita e os elogios que certamente virão façam parte integrante da pauta de assuntos do dia.

Por tanto, ao menos de vez em quando, faça a terapia do ‘‘amigo é p’ra essas coisas’’: escolha a dedo seus amigos (por isso Deus nos deu poucos dedos), faça opção por um lugar tranqüilo e agradável (pode até ser sua própria casa, desde que a TV esteja desligada), escolha uma boa seleção de músicas (se me convidarem, não programem pagode e axé), decida a pauta de assuntos que mais agradar (não vale falar sobre seqüestros, crise financeira ou política), escolha boas receitas de petiscos (experimente por enquanto algumas de minhas sugestões abaixo) e os prepare com capricho. Ponha a cerveja no freezer ou o vinho no balde de gelo, esqueça temporariamente as restrições alimentares (jamais convide seu médico para petiscar com você) e seja feliz nesse verdadeiro SPA (Sociedade dos Petiscadores Amigos), enquanto temos essa opção.


Meno

Meno um botequineiro
Enviado por Meno um botequineiro em 15/05/2006
Código do texto: T156326
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Sobre o autor
Meno um botequineiro
Santos - São Paulo - Brasil, 70 anos
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