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O perigo do celular

Entro num café que costumo freqüentar devido a sua proximidade da Universidade e livrarias. Encontro amigos que também circulam por ali. Um deles relata a história de um celular que disparara a tocar, no interior do avião que o trazia de São Paulo a Curitiba.

Ao ouvir o som do aparelho, chamou a aeromoça que prontamente pegou o microfone e pediu para que o responsável desligasse imediatamente o telefone e alertou para o perigo que este representa a bordo. Mas o som do celular persistiu. Meu amigo, nervoso, esbravejava e ajudava a comissária na busca do infrator. Abriram os porta - bagagens de mãos, fuçaram bolsas e acusaram uma velhinha que protestou, argumentando que nem mesmo possui um aparelho celular. E o som irritantemente persistia, até que meu pobre amigo se deu conta de que o toque provinha de seu próprio casaco. Disfarçadamente levou sua mão ao bolso e não só desligou o inconveniente aparelho, como também tentou destruí-lo.

Após rirmos muito da história, folheamos os jornais com as enxurradas de manchetes sobre os motins, rebeliões, incêndios a ônibus e toda a confusão que apavorou São Paulo neste final de semana.
As opiniões a respeito se convergem na acusação do grande vilão, os aparelhos celulares no interior dos presídios.

Discussões sobre como impedir o acesso dos presos aos telefones, propostas de solucionar o problema através do bloqueio de chamadas nas áreas em que as prisões estão localizadas, solicitações do governo para que as operadoras se responsabilizem pelo bloqueio destas áreas e a resposta das operadoras que não se sentem obrigadas a isto, dão o tom e a direção da abordagem do assunto.

Em seu livro “Cultura do Medo”, o sociólogo norte-americano Barry Glassner aponta para uma especificidade da mídia e dos formadores de opinião ao lidarem com o tema da violência. Visando o obscurescimento de questões fundamentais aí implicadas, elegem tratar do que está mais à mão e do que todos se sentem à vontade para opinar, sem precisarem recorrer a dados mais demorados de análise.
Existe algo mais à mão que um celular?

Se o avião em que meu amigo se encontrava caísse por falta de combustível ou uma falha qualquer do comandante e ele sobrevivesse, certamente sentiria-se culpado por sua atitude atrapalhada.
Mas, posteriormente, uma análise detalhada da caixa preta poderia elucidar a verdadeira razão da queda.
Celulares a bordo podem ser perigosos, mas nem sempre representam a causa de um desastre.
Rocio Novaes
Enviado por Rocio Novaes em 16/05/2006
Reeditado em 17/05/2006
Código do texto: T157434
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Sobre a autora
Rocio Novaes
Curitiba - Paraná - Brasil
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Rocio Novaes