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O dia que São Paulo parou

(e não foi por causa de enchente!)

Segunda-feira, quinze de maio de dois mil e seis. O dia mais estranho que a sociedade já proporcionou a minha existência terrena. Talvez o tombamento das torres gêmeas em NYC, proporcionado pelos amigos de Bin Laden, tenham me impressionado de forma similar, mas o que ocorreu aqui em SP, orquestrado por Marcola (o Bin Laden tupiniquim?) eu não acompanhei pela internet, eu presenciei ao vivo, com óculos sociológicos, como diriam os intelectuais gabaritados.

Os ladrão matando os polícia desde sexta-feira já tinha sido a pauta das minhas conversas de bar com alguns amigos até então. Mas as pessoas me chamando o tempo todo no MSN pra contar sobre novos alvos das rajadas de metralhadoras criavam em meu fértil imaginário cenas de guerra como as de Nascidos para Matar de Kubrick, ou os cenários iraquianos divulgados ao redor do mundo pela CNN. Até o MASP teria ruído ante as ações do PCC, conforme meus amigos.
 
Aos poucos eu recebia notícias de empresas e escolas dispensando seus quadros mais cedo. Na construção ficcional do meu cérebro só faltou mesmo aquela sirene sinistra que toca para que nos recolhamos em abrigos debaixo da terra em tempos de guerra. Vai que na cadeia de segurança máxima de Presidente Venceslau esteja cumprindo pena algum iraniano e até uma bomba nuclear seria capaz de cair em São Paulo, tamanha era a amplitude das notícias que chegavam.

Onde eu trabalho, os funcionários também foram dispensados mais cedo e a faculdade, alguém já havia me dito, suspendera as aulas. Mas eu, em súbita tomada de consciência, não pude acreditar no que meus olhos viam e liam e no que meus ouvidos ouviam. Resolvi por cumprir minha rotina, no único dia em que seguir a rotina era o mais desejável. Seguir a rotina naquela segunda-feira era desafiar o perigo, arriscar a vida. A rotina se tornou uma aventura e não mais uma tortura. Fui o último a sair da empresa. E sou obrigado a reconhecer que o espírito belicoso da cidade havia me contaminado, e eu respirei fundo ao dar a última volta na chave que tranca o portão. E pensei: “Lá vou eu... Será que chegarei em casa vivo!?”.

Resolvi atravessar a Vila Mariana a pé e ir pegar meu ônibus no terminal que fica em cima da estação Ana Rosa do Metrô, entre as estações Paraíso e Santa Cruz que, segundo relatos, haviam sido alvejadas pelos fuzileiros do PCC.

Mas, enquanto caminhava em direção ao ponto não conseguia enxergar o cenário descrito nas mensagens do MSN. Tudo parecia normal. A merda do trânsito diário e a pressa dos transeuntes era a mesma coisa de sempre. Quer dizer, já era mais de seis horas e o pico do trânsito já havia sido alcançado algumas horas antes, durante a fuga dos assustados cidadãos paulistanos, mas mesmo assim ainda me parecia tudo igual.

Como era de se esperar, os ônibus já tinham sido recolhidos pelas empresas. Afinal, muitos deles tinham queimado durante o ocorrido. Aliás, muitos ônibus da frota da cidade já estavam (e ainda estão, é claro) destruídos antes mesmo de tais fatos revoltosos. Ônibus caindo aos pedaços faz parte do dia-a-dia paulistano. A solução foi utilizar o Metrô, que até então diziam, não estaria funcionando também. E foi justamente no Metrô que tive noção exata do que estava acontecendo. Segunda-feira, dia normal de trabalho, horário de pico, e onde estava o rush? Meu... No vagão que entrei não tinha mais que meia dúzia de pessoas! Mas a surpresa maior estava na estação Sé. “Cadê todo mundo!?” – interroguei exclamativamente a mim mesmo. Parecia domingo. Parecia feriado. Praticamente vazio. A paranóia do medo dominou as pessoas, e quem não estava em casa procurava meios de chegar lá o mais rápido quanto fosse possível. Não pude deixar de lembrar do episódio em que Orson Welles narrou uma suposta invasão da Terra por marcianos, durante transmissão radifônica para o Dia das Bruxas do ano de 1938, levando muitos cidadãos americanos ao desespero.

Do meu lado dois senhores conversavam. E um deles disse tudo: “Já tava escrito na Bíblia, é o fim dos tempos!”. Diante do exposto, quem sou eu pra duvidar...
Leonardo André
Enviado por Leonardo André em 18/05/2006
Reeditado em 24/05/2006
Código do texto: T158355
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Sobre o autor
Leonardo André
São Paulo - São Paulo - Brasil
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