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Porta -retratos

Desde a adolescência, sempre que tentava fazer uma escala em ordem crescente de valores, das coisas ou pessoas em minha vida, eu fazia da seguinte forma; pai, mãe, irmãos, avós...etc...Depois de casada não ficou muito diferente; marido, filhos; pais...etc. Eu na verdade nunca conseguia me encaixar nesta escala, sempre me excluía, me ignorava, achava que a minha posição não importava e não tinha valor, que seria egoísmo da minha parte querer ocupar uma posição de destaque, eu própria estabelecer o meu valor, o meu lugar nesta escala, e assim não me preocupava muito com isso...até que um dia fui pega de surpresa...

Minha cunhada estava passando o dia comigo, estávamos conversando, quando de repente, ela pegou um porta retratos em forma de árvore que estava próximo, onde cabiam três fotografias: uma no topo da árvore e as outras duas mais abaixo, no mesmo nível, então ela me perguntou:"-Sandra, se você fosse arrumar este porta-retratos, colocando nele fotos das pessoas, pela importância que elas têm em sua vida, como você distribuiria estas fotos?!...
Com muita simplicidade e sem nenhuma dúvida afirmei com convicção: Meu marido e nas laterais os meus dois filhos. Ela então me perguntou porque eu faria essa distribuição, parei...pensei...não tive resposta...simplesmente não sabia nem como nem o que responder a uma pergunta aparentemente tão simples. Ela então continuou...- e você?!
e a sua foto?! você colocaria onde?! qual o seu lugar neste porta retratos?! Mais uma vez não tive resposta, não soube responder, então tive consciência que não tinha lugar para mim. eu não havia conquistado ainda o meu lugar, eu não havia reservado o meu lugar, não me acreditava com valor suficiente para ocupar um lugar de destaque. Comecei a me questionar...rever os meus valores (se é que tinha algum!). 
 Eu havia me anulado! minha educação muito repressora teve uma grande responsabilidade nisso tudo, eu não existia!   Eu vivia os outros! a vida dos outros! eu não vivia a minha vida, eu simplesmente sobrevivia...ou subvivia...me anulando, achava que assim faria os outros felizes.  Eu não tinha ainda assumido o meu lugar! Eu até então não tinha tomado consciência que por mais que eu quisesse, eu não poderia existir pra ninguém se eu não existia pra mim mesma, que antes de valorizar as pessoas que me cercavam, eu teria que me valorizar, que antes de amar da forma que eu amava, eu teria que me amar, eu teria que existir, eu teria que ocupar o meu espaço, conquistar o meu lugar naquela escala, onde eu sabia tão bem colocar os outros. 
Em se tratando de uma pessoa como eu,formada, ocupando o meu lugar na sociedade, eu até então não tinha tomado consciência do quanto eu tinha me anulado como ser humano, achando que dessa forma, com esse meu modo de agir traria felicidade a todos a minha volta, não sabendo eu, que somente dá felicidade quem é feliz, que só se amando, você pode amar verdadeiramente, e que realmente pra fazer parte deste mundo, precisamos...simplesmente...existir!
Hoje...tenho os meus deveres, mas principalmente brigo pelos meus direitos, aprendi que não é renunciando a mim, tentando sempre agradar a todos, deixando as minhas vontades de lado, que consigo o respeito e a confiança dos que me cercam...porque agradar, não é se anular, não é sempre renunciar, nem deixar de existir!
E foi através de um simples porta-retratos que tomei consciência que até então...eu não tinha existido!!!!!!






Sandra Mamede
Enviado por Sandra Mamede em 20/05/2006
Código do texto: T159513

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Sobre a autora
Sandra Mamede
Salvador - Bahia - Brasil, 64 anos
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