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Cheiro de Dama da noite e de Plutão

 

E ela se perdia em lembranças da Tijuca que conhecera, e nesses momentos sentia-se uma velha. Pensar em todas as mudanças que já assistira.
O pano de fundo: sempre o mesmo caramanchão, com cheiro de dama da noite e de Plutão.
Era um velho caramanchão, numa velha rua do velho bairro, e que mais do que ela,  com toda a certeza, assistira o virar das páginas do tempo.
Um velho caramanchão que parecia ter alma própria, odores e sons, povoado de lembranças de outras épocas, de quando tudo começara, até mesmo a velha rua, o bairro e a casa que anteciparam o caramanchão: obra do bisavô. O bisavô materno era uma espécie de patriarca, foi um homem rico e poderoso, que meio que chefiava um clã. Muito inteligente, saiu pobre e muito jovem de uma cidade do interior do estado do Rio, e foi para a capital, disposto a trabalhar e estudar. Estudou sozinho Direito, Engenharia, Medicina, e mais alguma coisa que ela nem se lembra mais o que. Era um autodidata. Naquela época ainda não haviam muitas faculdades e se podia ser autodidata, fazer provas e conseguir se graduar. Entrou para a política e foi o vereador mais votado do então Distrito Federal, presidente da Câmara. Foi também quem construiu aquela casa e aquele mesmo caramanchão com cheiro de dama da noite e de Plutão. A casa onde se encontrava o caramanchão foi a primeira do bairro, e sobreviveu a tantas gerações, que conheceu a escravidão. Talvez escravos se sentassem no velho caramanchão, como ela. Ela nasceu nesse meio, e a casa em que os pais viviam era como um satélite da casa do bisavô, aliás, como a casa de todos os seus outros filhos, tudo em volta do caramanchão. Partes da casa que fora outrora uma chácara, a primeira no velho bairro.
Sua vida foi sempre impregnada pela presença dominante da velha casa e do caramanchão. Com três anos perdeu o avô, e não entendia a partida daquele avô que lhe fazia todas as vontades, como, aliás, faziam todos os demais habitantes daquela casa. Foi-se o avô com todo o seu charme, com os ternos brancos de panamá, óculos ray-ban, parecendo um galã de fita de cinema. Sobrou o caramanchão, onde esperava todas as tardes o avô chegar do trabalho. Era lá que ela sentia o cheiro de dama da noite e de Plutão.
Ela se agarrou demais ao pai, que com trinta anos teve o primeiro enfarte, o que fez com que passasse muitos dias tristes no caramanchão. E nesses momentos, o que predominava não era o cheiro da dama da noite, mas de Plutão.
Começa então a perceber a dimensão da possibilidade da morte, foi iniciada nos mistérios do Hades. A morte passa a rondar o velho caramanchão.
O casarão do bisavô, que abrigava o caramanchão, era como a sede de um clube familiar. Quando ela tinha seis anos, o bisavô também morreu no velho casarão. Morte física apenas, pois sua presença impregnava desde o fundo do quintal, em outra rua, passando pelas paredes do velho casarão, até o caramanchão que a cada dia cheirava mais a Plutão, amortalhando o cheiro de dama da noite, fosse inverno ou verão.
Esse bisavô, presença forte, segue vivo também para ela, de quem se despede, logo depois da própria morte. Ela tinha seis anos e nem entendia das coisas da morte e do mundo de Plutão. Conta para sua babá da despedida do bisavô que ainda imaginavam vivo e ela lhe manda calar a boca, as primas e a irmã não deveriam ouví-la. Elas não faziam parte do reino de Plutão, nem sentiam seu cheiro confundindo-se com o da dama da noite no velho caramanchão.
Começa a perceber que pertencia a um outro reino, talvez lhe faltasse mesmo um parafuso na cabeça, não conseguiam entendê-la muito bem, com suas visões e as sensações, que invariavelmente se mesclavam com o cheiro de dama da noite e de Plutão.
Passa a ver coisas estranhas, fatos de outra época, do início da velha casa, e do caramanchão, todos ainda novos, frescos, mesmo o velho caramanchão. Seus velhos habitantes que já estavam em outro reino passam a visitá-la, a conversar com ela, e ela assiste a saraus no salão em frente ao velho caramanchão. Só a avó podia partilhar sem críticas essas suas visões, e não era raro trocarem idéias sobre as cenas que via e os protagonistas das ações que se processavam em frente ao velho caramanchão. A morte passa a fazer parte de seu dia a dia, animais de estimação que se vão, parentes que orbitavam ao redor do caramanchão, e o cheiro de morte e de Plutão que rondava seu lar, à espreita de levar o pai e fechar mais um ciclo em sua vida, e na vida do caramanchão.
Ela era brilhante em seus estudos, e projetam sobre ela a possibilidade de vir a ser uma médica, advogada, política, juíza, algo de renome - o bisavô talvez, uma continuação do casarão e do caramanchão que para ela, cheirava a dama da noite e a Plutão.
Mas a sua admiração era pelo pai que era aguardado ansiosamente por Plutão, admirava sua simplicidade, sem o berço de quem nasceu no velho casarão. Admirava seu carinho ao banhar crianças sarnentas que viviam e se chafurdavam na lama dos locais pobres onde viviam, no amor que ele dedicava ao tratar de seus tumores e seus cânceres, aquele pai, um cancerologista, soldado que lutava contra as estratégias de Plutão. Só que seu pai estava em contagem regressiva, ele mesmo já fora convocado por Plutão a dar seu passeio no Hades, abandonando a velha casa e o velho caramanchão.
Quando tinha dezesseis anos, morrem o tio-avô mais próximo e o pai, a atmosfera é impregnada pelo cheiro de dama da noite e de Plutão. A vida foi amortalhada, assim como o casarão e o velho caramanchão.
Poucos anos mais tarde, cai o velho casarão com seu caramanchão. Foram vendidos. A modernidade chegou ao velho bairro e expulsou aquele velho casarão, com suas paredes pintadas à mão, as velhas banheiras de ferro com pés, o fogão à lenha, a capela que um dia incendiara e onde ela viu uma imagem do sagrado coração subir um degrau no velho altar, como a fugir do fogo e da destruição. Nem mesmo as ruínas ficaram do velho casarão, restou apenas uma velha árvore, um pau-brasil, um símbolo de seu passado, um obelisco em memória ao seu caramanchão com cheiro de dama da noite e de Plutão. A velha árvore que hoje já não é mais soberana em meio a tantas outras mais baixas e mais jovens que reverenciavam sua magnificência. Perdida e amordaçada pela modernidade, jaz circundada por uma grade de ferro a protegê-la, colada ao espigão que deu lugar ao casarão.
O que se foi, resta apenas em sua imaginação. Verdade? mentira? Foi mesmo assim? Nem ela mesma sabe, só o que sabe é que ao lembrar, o que lhe vem é o cheiro de Plutão, amortalhando tudo, seu passado, seu casarão, o pé de dama da noite e seu velho caramanchão. Restam agora o presente e o futuro: a modernidade... E aquele inesquecível cheiro de dama da noite e de Plutão invadindo suas lembranças, sua alma, seu coração.

claudia araujo
Enviado por claudia araujo em 21/05/2006
Código do texto: T160155
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Sobre a autora
claudia araujo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
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