Releituras de um site literário_3_
"Questõezinhas" polêmicas...


     Em qualquer site literário em que se permite comentários públicos, quatro tipos de comportamento são fatores que geram polêmicas e prejuízos: mau caráter, desrespeito ao direito à liberdade de expressão, garantido pela Constituição Federal, a egolatria de alguns autores e a inabilidade para distinguir a diferença entre a pessoa física e o eu-ficcional (ou eu-poético).
     É mais do que notório que os indivíduos de mau-caráter são pragas humanas que atacam qualquer grupo social, profissional, político ou religioso. Portanto, como não poderia deixar de ser, eles estão também nos sites literários, numa anônima condição de leitores, frustrados escritores ou simplesmente comentaristas não-autenticados, praticando tranquilamente a sua ação deletéria de causar prejuízos à reputação ou ao mérito de outrem. Encarar esse fato com bom humor ou acomodação é um erro grave: é preciso reagir sempre com energia, denunciando e repelindo das nossas páginas esses agentes nocivos do desassossego sob todas as suas modalidades.
     O desrespeito à liberdade de expressão, entre intelectuais, seria uma piada de mau gosto, um argumento fantasioso da minha parte, se não existisse realmente neste site, exercendo pressão contra a sagrada e inalienável opinião própria de cada um. O comentarista usa o seu comentário para chicotear o autor, não porque o texto lhe desagrade, mas porque a opinião do autor, exarada no texto, lhe repugna, enfurece ou contraria os seus pontos de vista éticos, políticos ou religiosos. Há cerca de dois meses, quase fizeram um sumário linchamento moral de um autor porque ele “ousou” falar mal do Manuel Bandeira, um dos grandes autores do Modernismo Brasileiro. E daí, qual é o problema? Somos todos obrigados a gostar do estilo de Manuel Bandeira? Eu, particularmente, já recebi muitos comentários-pedradas – todos, naturalmente, rápida e discretamente apagados – por ser um agnóstico assumido e não esconder essa posição nos meus contos e crônicas.
     Mas, como em quase todas as coisas desta vida, há que se olhar a outra face da moeda: gente que usa a liberdade de expressão para ofender gratuitamente, disseminar informações maquiavélicas e tendenciosas, caluniar, difamar, fazer a apologia do crime e do preconceito. Um dia, me informaram que um autor do Recanto das Letras, de nacionalidade portuguesa, postando um texto sobre a novela "Duas Caras" estava insultando os brasileiros. Fui lá conferir e, de fato, o cara estava "metendo o cacete"  nos brasileiros: "A novela é um retrato do que vocês são: safados, ignorantes, etc. etc...." Ah, não prestou! De arma em punho - o meu comentário - fiz um veemente repúdio público àquela ofensa gratuita e inaceitável ao pacífico e acolhedor povo brasileiro, ameacei enviar um protesto oficial ao Consulado Português, no Maranhão, acionei os meus amigos portugueses, que escreviam no Recanto das Letras, os quais, unanimemente, desaprovaram e lamentaram o deplorável comportamento do autor português, e, afinal, encurralado, o sujeito excluiu o texto e até - pasmem - pediu desculpas! Nesses casos, portanto, não há muito que conversar, só "pau neles!"
     E a esse aspecto – o de não respeitar o direito à livre expressão de cada um – vem juntar-se outro, não menos danoso às relações sociais e culturais: a egolatria. Mal acostumados a elogios baratos de admiradores e/ou bajuladores, alguns autores, empanturrados de empáfia literária, reagem muito mal quando recebem comentários realmente crítico-literários, os quais, é claro, também têm que se pautar pela civilidade e respeito à sensibilidade alheia. Ainda assim, por mais que sejamos polidos, é comum que essas “estrelas” deem verdadeiros chiliques, reclamando que “estamos falando mal” dos seus textos e sugerem, velada ou claramente, que mudemos os comentários. Quase sempre me recuso a atender esse pedido, mas quando, por amizade ou em nome da convivência fraterna, resolvo atendê-lo, dou por encerrado o meu intercâmbio de comentários com essa pessoa. Claro, como posso continuar a comentar a obra literária dessa pessoa, se ela faz beicinho ou fica brava com qualquer coisa que não seja massagem no seu ego?
     Finalmente, vem a questão – melindrosa, por sinal – da confusão entre pessoa física e o eu-ficcional ou eu-poético. O conjunto das características psicossociais de um autor, ou seja, temperamento, idéias, hábitos, desejos, tendências, conduta, etc. homem ou mulher, com estado civil e profissão declarados ou não, com CPF e RG, na maioria das vezes, não coincide ou nem mesmo se assemelha com o de seus personagens. Só para dar um exemplo, Nélson Rodrigues, que foi considerado “o escritor maldito” em sua época, tinha, entre os seus temas preferidos, os desajustes sociais, as taras e as perversões sexuais, inclusive o incesto; um de seus personagens mais famosos fazia a apologia da violência contra a mulher e se justificava dizendo que “Toda mulher gosta de apanhar”. Quando uma equipe de repórteres da revista O Cruzeiro foi entrevistá-lo, tiveram a maior surpresa: encontraram um pacato cidadão, de cinquenta e poucos anos, sem nenhum vício, religioso, de hábitos quase puritanos, casado há 30 com a mesma mulher, pai exemplar e severo de duas moças, e que jamais houvera tocado num só fio de cabelo de sua mulher em toda a sua vida!
     Mas, como uma boa parte dos comentaristas deste ou de outros sites literários jamais analisaram – ou nunca se preocuparam em analisar –, este aspecto da criação literária, não é raro que autores, principalmente mulheres e os mais velhos, experimentem até mesmo grande desconforto com os comentários de engraçadinhos, piadistas e moralistas de plantão: o tema ou personagem de um poema ou conto (principalmente poemas de amor ou contos eróticos e de humor) é interpretado à luz da pessoa física do autor e lá chovem alusões pouco recomendáveis ou grosseiras, piadinhas de mau gosto ou conselhos mais ou menos imbecis.
     Não é necessário conhecer Literatura para ser um escritor e poeta, mas, tomo a liberdade de sugerir que, para comentar, ou seja, interpretar um texto, bem proveitoso seria antes que tais “espertos comentaristas” aprendessem um pouquinho de Teoria Literária. Assim não se tornariam nem cômicos nem agressores da sensibilidade alheia.
     Mas, sejamos sinceros, fora dessas “questõezinhas”, a vida é bela no Recanto das Letras!



Santiago Cabral
Enviado por Santiago Cabral em 22/05/2009
Reeditado em 22/01/2012
Código do texto: T1608901
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