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O cachorro de Sá Otília

O cachorro de Sá Otília

 -Sá Otília,...o cachoooorro,....o cachorro está sooooooolto!

O grito percorria cerca de duzentos metros de quintal que separavam a casa de minha bisavó da casa vizinha a casa da Sá Otília, era o alerta sobre o cachorro, com aparência de lobo, negro, tido como uma fera.

Eu o vi poucas vezes e, assim mesmo, de raspão, só o vulto, ele em disparada em direção a dona e eu subindo na árvore mais próxima, com a agilidade de quem já vivia na cidade. Certa vez subi em uma goiabeira, cujo galho flexível me levava, apavorada, de volta ao chão!.

O pomar, local predileto das brincadeiras, a sombra de pés de caqui, manga, pêra dura, maçã, laranja, mexirica, goiaba, abacate, lima, mamão, limão e jaboticabeiras centenárias, era cercado por um muro de arrimo na testada da rua e na lateral de Sá Otília por uma cerca de bambu, cujas bananeiras ornavam todo o seu percurso. Ambas as barreiras inúteis para o cachorro.

Todo o pomar, que ocupava a maioria dos cerca de seis mil metros quadrados da propriedade, era plantado , árvores frutíferas e entre elas milho, o que impedia antecipar a presença do cachorro. Era a sua corrida que o denunciava ao balançar o milharal sempre seguido do aviso de um primo mais atento: o ca cho rro da Sá Otília esta solto!. A criançada aos gritos corria em direção as árvores ou ao portão que separava o quintal do pomar. Era um salve-se quem puder.

Da casa grande alguém atento a criançada solta no pomar ouvia o rebuliço e aos gritos comunicava a vizinha que de imediato passava a chamar o cachorro. Zunindo entre o milharal ele obedecia e disparava. Pena que o tempo ou o medo tenha apagado o seu nome.

Hoje acredito que o cachorro é que tinha muito medo da criançada e sua braveza era uma lenda, daí nunca nos ter atacado. De qualquer forma passava por nós como um meteoro rasteiro, terrestre, levando pânico a brincadeira.
         
Lembro-me da casa da Sá Otília, de uma pobreza evidente, possuía uma porta e uma janela que davam direto para a rua.  Sá Otília integra o rol dos grandes mistérios de minha infância.

Negra, alta, magra, cabelos grisalhos que escapavam do pano encardido sempre amarrado a cabeça, vestido longo e desbotado, pés descalços enormes e um olhar baço de quem podia enxergar as almas. Morava com uma filha de quem pouco me recordo embora tenha dela uma vaga lembrança de um olhar ensandecido, vazio.

A porta da casa aberta para a calçada nunca vi fechada e dali se enxergava o fogão de lenha sempre acesso. Não me recordo de alguém mais na casa ou de ter ouvido qualquer comentário sobre elas. E olha que se comentava naquelas casas mineiras...

Passávamos pela casa de Sá Otília sempre que descíamos a rua em direção a fábrica de leite, a estação de trem ou aos raros passeios ao Morro do Rosário, encimado pela Igreja barroca da santa que lhe dá o nome.

Quando coloco os verbos no plural é para dizer que não me recordo de andar sozinha na infância andrelandense, sempre acompanhada ou de algum primo ou de Luísa, minha amiga inseparável desde do dia de meu nascimento.

Nasci em casa e a vizinha curiosa foi ver a criança, neste momento nos tornamos amigas e dela me recordo me acompanhando em todos os momentos em que estive em Andrelândia ou lá morei.

Luísa merece um narrar a parte, só dela, afeto que dura sessenta anos!

Aqui só a lembrança da vizinha da minha avó cujo cachorro dispersava as brincadeiras da infância.

 Maricá,2006
Gilda Delgado
Enviado por Gilda Delgado em 23/05/2006
Código do texto: T161268
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Sobre a autora
Gilda Delgado
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil, 70 anos
11 textos (568 leituras)
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