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DEIXANDO MOÇAMBIQUE

          Desviando da rota reportada ao controle aéreo da Beira, o avião fez um pouso de risco no Búzi, a outra margem do rio Púngue, na velha pista de terra da empresa açucareira, há muito interditada pelas péssimas condições de conservação. Sem desligar os motores, o piloto, visivelmente nervoso, ajudou-a a descarregar as malas e três volumes de bagagem.  Desejou-lhes boa sorte, e em poucos minutos, fazia uma decolagem apertada de volta à rota original. Foi-se o ronco e a ventania da máquina. Ela e o menino de quatro anos ficaram na pista deserta. O abandono era tal que, nas laterais da pista de pouso, o capim chegava a dois metros de altura  e ia conquistando toda a pista em tufos volumosos, que tinham feito estremecer o avião durante a aterrissagem.
          A moça arrastou as malas por uns quatro metros até desaparecerem dentro do capim alto. Juntando as bagagens, improvisou um estrado, e sentaram-se sobre ele para evitar as formigas e possíveis cobras. Nos olhos do pequeno Pedro, sobravam perguntas. Crescera junto aos aviões entre pousos e decolagens, monomotores, dakotas, boeings, aeroportos maiores e pistas no mato ou na praia. Mas aquela viagem era surpresa, e a situação inusitada. Era muito pequeno, para entender a ausência do pai, mas o fato de estarem ali como que fugidos era evidente na atitude nervosa da mãe que, por precaução, não o prevenira.
          No entanto, aquela interrogação no olhar insistente do menino não podia ser prolongada: iam ver o pai. Ele estava em Salisbury. Tinham que esperar ali umas três ou quatro horas talvez, até que chegasse um outro avião, Ok? O pai estava lá? Sim, estava e estava esperando por eles, ela explicou, só não sabia em que dia chegavam a Salisbury.
          Moçambique, depois da independência, e Rodésia tinham cortado relações diplomáticas, e não havia comunicação por telefone entre os dois países. Aquela fuga precipitada tinha sido decidida nas duas últimas horas. Nos últimos meses de 1975,  viviam-se circunstâncias perigosas em Moçambique à mercê de arbitrariedades, de abusos e de perseguições da Frelimo, a temida polícia de estado do novo regime. As pessoas evitavam os aeroportos e faziam vôos clandestinos até as fronteiras com a Rodésia ou com a África do Sul. Mais cedo ou mais tarde, os pilotos que as levavam eram descobertos e era a vez de eles próprios fugirem, deixando em maus lençóis um colega.
          E agora... O que é que ela tinha trazido ali para o Pedro? Sobre a mala maior, despejou uma bolsa de peças coloridas de Lego e um ah de satisfação se fez na expressão do pequeno. Era como se ele estivesse em casa, como se coisas tivessem voltado à sua ordem natural. O mundo seguia em seu movimento de rotação. Enquanto ele armava formas coloridas e conversava com elas, a mãe passava a vida a limpo.
           Na bolsa de mão, havia papéis vários: um comprovante do aspirador de pó no conserto; registro de livros que ainda estavam no correio por levantar; cartões postais, convites, carteira de cheques, contas, comprovantes. Algumas horas atrás, aquela papelada tinha tido o devido valor. Mas tudo é relativo, e em poucos instantes pode mudar muito.
     A máquina fotográfica? A máquina! Tinha-a esquecido no avião. Paciência.
     Olhou para as chaves da casa; chaves de armários de roupa, das bebidas, do carro, chaves...  Inúteis. Atirou-as longe como quem joga pedras à vida. Além do mais, o mundo estava todo aberto à sua frente. Uma pequena pasta com passaportes e documentos, alguns dólares rodesianos, uma bolsa de veludo com jóias de sua mãe foi tudo o que ficou. Doía a brutalidade daquele desamarrar-se assim das miudezas materiais, ou seria da garantia de rotina, da sua casa? Calma, dizia-se. Outra casa viria, outra rotina, não era para tanto. O filho estava a seu lado. Era o essencial. Ficou lá sentada, aquela violência sangrando por dentro. Alma e identidade plantadas naquela terra, a dor que afinal a cortava ao meio era ser arrancada do seu chão pela raiz.
      Varrendo do canavial, o som do mar vinha em ondas, e com o passar das horas, tornou-se compassado, mais e mais  pungente, um requiem.
     Ao pôr-do-sol, três horas e meia de atraso em relação ao combinado, um bimotor finalmente sobrevoou a pista, reconheceu-os e pousou. Sem desligar os motores, e já com os dois passageiros e as bagagens a bordo em menos de cinco minutos estava de novo no ar. Em seqüência veloz, ficou para trás o Búzi, a Beira, Vila Machado, Vila Pery, Vila Manica e a Penhalonga. Quando as luzes de Umtali estavam à sua esquerda, o comandante Hamilton, piloto inglês que acabou sendo abatido em vôo poucos anos depois, tranquilizou-a em tom de quem desabafa a própria tensão: espaço aéreo rodesiano, God bless!
     Alívio! Alívio sem dúvida, mas uma dor inegável também! Alívio e dor simultâneos. Era isso mesmo. O filho dormia confiante no seu colo, mas Moçambique ficara para trás, embrulhado na noite.
     A maior fortuna do ser humano está nele mesmo: princípios, formação, valor próprio, vivência e memória. Ele os transporta aonde quer que vá. A dor também.
                                                                                             Planeta Terra, 02.02.1976
                                                                 
Anabela Bingre de Négrier
Enviado por Anabela Bingre de Négrier em 28/05/2006
Reeditado em 28/05/2006
Código do texto: T164386
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Sobre a autora
Anabela Bingre de Négrier
Ponta Porã - Mato Grosso do Sul - Brasil
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Anabela Bingre de Négrier