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Porque tudo funciona ao contrário...

Hoje vou ao dentista. Bem que tentei evitar, na verdade nem precisava, mas sabe como é, melhor prevenir que remediar. Já vou agora e posso ficar mais tempo longe dele. Não, não. Não tenho medo dos seus aparelhos ou de ter um dente arrancado. Simplesmente me sinto desconfortável. E não é? Uma hora sou um grande advogado, renomado, conhecido e admirado. Outra, sou apenas mais uma pessoa de boca aberta em frente a um dentista. Há horas em que as diferenças desaparecem mesmo...

Mas então, lá estou eu. Sentado na salinha de espera. Folheando uma “Caras” de dois meses atrás. Essa revista deve ter sido criada especialmente para salas de espera. Fotos, fotos, alguns comentários, fotos. “Leitura” rápida. Perfeita para salas de espera.

-Alberto Ramos de Almeida!

Fecho minha "Caras" e me dirijo à sala.

-Boa tarde, Dr. Almeida! Como vai?

-Bem, obrigado. Olhe... Tenho um compromisso às cinco horas... Não será nada muito demorad...

-Não, não! Que é isso! Apenas um check-up! Mas me diga, como anda a vida?

É. Não tem jeito. Sempre dão um jeito de puxar um papo. Ando me sentido um pouco irritado nessas últimas semanas, mas essa antipatia com conversas de dentista já é de longa data.

- Vai bem. Ando apenas um pouco cansado. Trabalho demais. Mas vou a um psicólogo hoje.

Ajeito-me na cadeira e ponho aquele “canudo” (aquilo tem algum nome?). Shhhhhhh. Agora que estou impossibilitado de falar é que o assunto anima.

- Mas não me diga! Sabe que eu também andava assim? Um pouco por causa do trabalho sim, mas a vida hoje em dia não anda fácil mesmo... Principalmente tendo dois filhos como eu. O senhor também tem filhos, não é?

- Shhhhhhh.A... Arram... Shhhhhhhh.

- Pois então. Não é fácil. Minha filha, a mais velha, foi assaltada dia desses. Não sai mais na rua sozinha. E eu vivo preocupado. O ladrãozinho ainda está solto por aí! Sei que não sou advogado, nem nada... Mas já está na hora de rever essas leis, o senhor não acha?

- Shhhhhhhh. Urrum... Shhhhhh.

- Um absurdo. Uma menina tão nova, que deveria estar aproveitando a vida, andando insegura por aí! Absurdo... Sua filha está com quantos anos?

- Shhhhhhh. A... Cãnzi... Shhhhhh.

- Ah! A minha tem dezesseis. Veja que absurdo! Terem que ficar trancadas em casa com essa idade! Não me conformo mesmo... Bom... tudo certo! Menos um problema para o senhor!
Graças a Deus! Já parecia uma eternidade e pensei que não acabaria mais. Tiro o “canudo” e me levanto um tanto quanto apressado.

- Bom, obrigado!

- Disponha, Dr. Almeida! Tente marcar uma nova consulta daqui a três meses. E mande um abraço a sua família! Até mais!

- Até.

Enfim, livre! Agora minha hora marcada com o psicólogo. Talvez expondo meus problemas eu me sinta mais calmo. O consultório é a duas quadras dali e mesmo assim tenho de enfrentar essa droga de trânsito... Merda! Olha pra frente! Esses jovens dirigindo... Haja paciência. Mas que demora! E são só duas quadras! Isso, meu filho! Atropela a senhora na sua frente! Que caos...

Chego, finalmente. Corro para chegar a tempo. Elevador quebrado... Tanta tecnologia pra nada, meu Deus! Vou pela escada mesmo. Cinco andares depois, lá está o psicólogo.

- Boa tarde! Desculpa a demora, mas esse trânsito... Tudo anda uma bagunça nessa cidade! O carro nunca consegue passar de 30 km/h, tem sempre algo na frente pra atrapalhar!

- Sem problemas. Queira entrar, por favor. Dr. Almeida, certo?
- Sim, sim.
- Mas então me diga. O que o trouxe aqui?
- Ah! Ando cansado! Trabalho, filhos, essa cidade... Veja meu exemplo de agora a pouco! Meia hora para andar por duas quadras! E cada maluco por aí... Jovens muito irresponsáveis, sabe? Correndo com carro por aí... Imagine o perigo disso para minha filha! Só de pensar já fico mais atordoado. Precisava falar com alguém, ser ouvido, uns conselhos talvez...

- Sim...

- Não tem como conversar em casa, sabe? Minha mulher também é muito ocupada. Nosso casamento também não anda muito bem... E amigos na mesma situação também...

- Urrum...

- Muita coisa pra fazer em pouco tempo. É de deixar qualquer um louco. O senhor não concorda?

- Sim...

“Sim, urrum, sim...” Qual é? Monossilábico? Quero ouvir alguma coisa!

- Será que férias ajudariam? Uma viagem. Capaz de até conseguir recuperar o casamento.

- Talvez...

Ah, essa é boa! Quanto eu paguei por essa consulta mesmo? Que absurdo! Se fosse pra falar sozinho, ligava um gravador em casa! Porra! Eu não fico mais aqui! Quero alguém pra conversar e me aparece uma estátua! Tudo errado hoje em dia! Tudo errado!

Fui embora.

Quer saber? Acho que vou voltar ao dentista...
Belisa dos Santos
Enviado por Belisa dos Santos em 29/05/2006
Código do texto: T165436
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Sobre a autora
Belisa dos Santos
Blumenau - Santa Catarina - Brasil, 30 anos
12 textos (3969 leituras)
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Belisa dos Santos