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Maria das Dores

               
                                       Maria das Dores

Maria das Dores desceu na Praça Mauá na antiga rodoviária do Rio de Janeiro. Veio do interior e em seus 17 anos nunca havia visto tanta gente, tanto carro, tanta edificação!

Desceu trazendo no embrulho um vestido roto, duas calcinhas e um casaquinho herdado da avó recém falecida. Em um lencinho, amarrado bem apertado , dentro do embrulho algumas moedas auferidas da venda das roupas da avó para uma vizinha. Mais nada no mundo além disto.

Ouviu histórias sobre o Rio na casa da fazenda. Como eram bonitas as pessoas que vinham de lá...como falavam bem...e os modos, as roupas, o tom da voz, as palavras. Nada dos sussurros e monossílabos de sua avó, nada parecido com o que ouvia da patroa quando a ela se dirigia... Era uma conversa, era riso, um palavreado diferente, música...isto tudo devia ser do Rio de Janeiro.

Nasceu ali naquelas terras, foi aos poucos crescendo e assumindo as funções da avó que envelhecia. A casa em que moravam pertencia a fazenda, a escola era longe para suas pernas curtas, e o mundo se resumia ao que seu olhar alcançava e seu aprendizado advinha todo da observação.

Foi  comunicada que a fazenda havia sido vendida e que ali seria feito um condomínio e que teriam que deixar o local. Recebeu o dinheiro do mês, voltou para casa e encontrou a velha morta, pagou o enterro e a passagem...Restaram as moedas.

Chegou ao enterro da avó sem noção de tempo e de espaço, de propriedade , de valor, de amizade, sozinha, analfabeta, ignorante, mas ainda conseguia sonhar.

Maria das Dores, poderia ter sido Maria da Paz, do Carmo, da Luz, da Encarnação, mas seu destino foi marcado pelo nome na hora do batismo. Das dô, como era chamada.

Na Praça Mauá, caís do porto da cidade, o comércio luminoso chamava a atenção mais que qualquer coisa, e com fome resolveu ir até um local onde pessoas riam, conversavam, bebiam e comiam.

Olhou para a vitrine desconhecida e lá viu um ovo azul, outro vermelho e nenhum branco, perguntou o preço... contou as moedas... e, pediu um. Comeu devagar pensando que aquele ovo azul tinha que ser diferente dos ovos que ela conhecia, mas nada , era igual, comeu sem sal pois ficou com vergonha de perguntar se tinha.

O ovo só despertou o estômago e aumentou a fome, sem dinheiro , envergonhada, disfarçou e saiu como entrou: sem ser notada.
 
Em um piscar de olhos, o som de sirenes, gente correndo, gritos, empurra, empurra, estampilho, Maria busca inquieta a origem do movimento, sem saber se é para correr ou para participar, até que uma dor forte no peito a leva ao chão.

Sente o calor do corpo se esfriando, seus músculos enrijecendo, e num último esforço ela ainda pensa: isto eu conheço, é a morte.


Observação: este texto foi originalmente concebido na década de 70, a migração, a repressão, os preconceitos da época (até porque alguns preconceitos entram e saem de moda), a minha visão de mundo, as informações que eu bebia, fizeram Maria das Dores se chamar Maria da Graça. A praça Mauá foi o palco de seu ingresso involuntário na prostituição, ela acabava de chegar do interior em busca de uma vida melhor, a ingenuidade é somente o antagonismo da esperteza urbana, as cidades em franco desenvolvimento naquela década. A concepção era de que rural e o urbano se polarizavam! Maria é da Graças com duplo sentido o da graça almejada e alcançada de chegar a polis sonhada e da graça/beleza/pureza.
Quanto tempo de lá para ca! A graça virou dores, as dores o cotidiano, o campo virando condomínio, a violência das carências, das ausências de oportunidade, da alienação, da simbologia dos tiros...
Mantenho a chegada em décadas anteriores pois hoje a rodoviária já mudou de endereço, embora eu tenha mudado o rumo da prosa. Afinal aqui (como ali, la ou acolá) tudo é representação.
Em mim ficou a imagem de alguém que chega pela primeira vez na Praça Mauá, nada mais expressivo, no meu entender, que a recepção que a cidade expressa no seu cais do Porto.
Achei que o texto merecia ser modificado e, que acima de tudo, para que eu mesma pudesse entendê-lo carecia de uma explicação. Só assim pude exorcizar a Maria das Graças! Quisera poder exorcizar a das Dô!

Maricá,2006


Gilda Delgado
Enviado por Gilda Delgado em 29/05/2006
Código do texto: T165553
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Sobre a autora
Gilda Delgado
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil, 70 anos
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