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ARTE É ARTE

Saí hoje para o trabalho sem pressa nenhuma, coisa incomum hoje em dia, não ter pressa. Peguei um roteiro diferente, pegando o trajeto que passa pela praia (não sei porque não faço isso todo dia), que é mais longo, mas deveras prazeroso. Coloquei um CD de valsas e vim dirigindo como quem anda de barco, me divertindo mesmo, ouvindo lindas composições que não me permitiram reagir,  como faço normalmente, as muitas fechadas dos ônibus, a má educação dos taxistas, os engarrafamentos, enfim, a todos esses problemas corriqueiros do transito, mas que nunca conseguimos nos acostumar. Belas músicas de fato, mas que foram, em sua época, consideradas  como arte menor. É verdade! a valsa sofreu muito preconceito, por ser vista como uma composição de simples variações, com acordes repetitivos. Não consigo entender essa mania de comparar 
artes, dando maior ou menor qualificação, como se fosse uma disputa,
 um campeonato que visa dimensionar uma emoção, um sentimento. Isso me fez refletir sobre essa condição de poeta menor, de poesia pobre ou coisa parecida. É evidente que existem artistas com maior grau de instrução, grande sensibilidade, uma cultura geral quase que ilimitada, gênios mesmo, mas isso se torna evidente na aceitação de suas obras, 
sem que seja preciso nenhuma comparação, que geralmente leva a depreciação de quem não tem as mesmas qualificações, sem que por isso, sejam vistos, como artistas menores. É bom dizer que não falo em minha defesa, até porque não tenho nenhuma preocupação com minha imagem, digamos assim, “artística” ou poética, mas esse prejulgamento tem levado muita gente boa a abortar preciosas contribuições, não pela falta 
de elogio, mas pela falta de incentivo. Por outro lado, normalmente é o mercado que dita o comportamento hoje em dia, mas não deixa de ser 
uma contradição que um bom trabalho não seja apreciado, apenas porque não é vendável ou pouco comercial. Esse paradoxo leva a leviandade das obras eternas enquanto durem, deixando a verdade surgir, apenas quando o tempo vem para corrigir as injustiças. Por isso, acho eu, que qualquer expressão artística tem seu valor e hierarquiza-la é apenas uma maneira de restrição, deixando muita coisa boa, escondida nas prateleiras dos 'infelizes' artistas que teimam em mostrar, contra tudo e contra todos, o seu trabalho, até porque, haverá sempre alguém para aceita-lo ou senti-lo.

Jose Carlos Cavalcante
Enviado por Jose Carlos Cavalcante em 31/05/2006
Reeditado em 31/05/2006
Código do texto: T166583
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Sobre o autor
Jose Carlos Cavalcante
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
730 textos (54065 leituras)
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Jose Carlos Cavalcante