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Parabéns!!! - que seja ...

Amanhã o telefone começará a tocar cedo, e embora toda a sua vontade seja se deleitar em um sono profundo que dure por todo esse dia, todas as pessoas do seu mundo parecerão querer celebrar.

E eu sei que você vai se perguntar se sendo este o seu dia por que raios seu desejo não pode ser satisfeito?
E lhe cai um mau humor só de pensar na hipótese de ter de ouvir as mesmas coisas de todos os outros anos.

Sua cabeça se afunda no sofá da sala só de pensar em ouvir que “Ah está mais velha!”, e você se contorce numa cólera intolerante, um misto de rancor e indignação ao concluir que ainda tem de ouvir essas coisas apesar da fortuna gasta em cremes rejuvenescedores.

“Ora, já não sou mais nenhuma criança? Mas velha? Vou dizer a você quem é que está mais velha!”. Está mais que claro que esta frase vai se engasgar na sua garganta por todas as próximas 24 horas.

A brabeza aumenta e você aumenta o volume da TV pra escapar do seu pensamento que parece propositalmente querer lhe adiantar situações pelas quais não queria passar.
Por quase dez minutos você se sente aliviada devido ao filme da TV a gato que lhe toma a atenção, mas é um filme triste, e estando você mais sensível que mulher grávida percebe a primeira lágrima escorrer pelo canto do olho.

Lava o rosto, se olha no espelho e faz cara de nojo para o que vê, vai para o quarto a ao acessar a Internet percebe que as felicitações já começaram. Você tem vontade de colocar em seu perfil apenas a frase “Me esqueça!”, mas sua cordialidade volta a tona quando termina de ler a mensagem que lhe foi enviada. É minha querida, amigo que é amigo não esquece, disso você sabe bem, só não sabe a importância de ser lembrada.

Acaba tentando entender o por quê de tantas pessoas quererem o seu bem quando o que você desejava era apenas um porre de ácido. E então você se deprime, sentindo-se a pessoa mais ingrata da face da Terra. A lembrança dos planos de desligar o telefone e os celulares antes do fim da noite de sexta começa a lhe envergonhar profundamente, e então, outra vez, você chora.

Sente necessidade de entender em que ponto do caminho você começou a deixar de ter importância na sua própria vida, e aí relembra quantas festas você mesma organizou para celebrar a outrem neste mesmo ano, contraditório eu sei, justamente você que rezou durante todo último mês pra que ninguém fizesse o mesmo por você. Aquele amigo, se ouvisse seus pensamentos e contemplassem sua atual cara de paisagem diria naquele tão conhecido tom poético de enjoar a alma: “Mulheres...”.

E sim, você se sentiria intimidada e diria o quanto gostaria de matá-lo, imaginando a cena acaba rindo de si mesma e acaba por concordar num sarcástico aceno de cabeça “Mulheres...”.

Mas antes que seu sorriso possa ser aproveitado pelos lábios saudosos o telefone toca – mas já? – e é sua mãe querida tentando jogar conversa fora. Tem a certeza de que como em todos os anos anteriores ela te liga fingindo não lembrar de nada, e está ainda mais certa de que como em todos os anos anteriores, em determinado momento ela não vai agüentar de ansiedade e vai tocar no assunto. “Ah minha querida, mais um ano que passas distante de nós, que saudade de ter você aqui comigo!”.

E você é obrigada a concordar que sente a mesma saudade, sobretudo não a de estar ao lado dela, mas especificamente dentro dela, protegida em seu ventre, um mundo quente e agradável onde não existiam telefones, computadores, cartas ou cartões, um mundo que era único e exclusivamente seu.
 
A conversa continua e você mais ouve do que fala – o que definitivamente não é de seu feitio – tenta não deixar transparecer que está deprimida, Deus te livre de sua amada mãe ter um infarto de tristeza achando que sua menininha não está bem, ainda mais na véspera de tal dia. Pra ela você será sempre uma menininha e isso te irrita: “Por que não posso ser menininha pros outros também?”.

Mamãe se despede, e você ainda pensando no assunto relembra que quando realmente era uma menininha ansiava por não mais ser. Sonhava os dias de hoje razoavelmente diferentes do que são, tinha a certeza que seriam um pouco mais rosados.
Quanta besteira... “Quando você crescer, tudo igual será exatamente o mesmo”.

Mas já está tarde e seus olhos começam a querer fechar, antes de ir pra cama olha duvidosa pra tomada do telefone que por fim decide deixar plugada. Com a cabeça socada no travesseiro, antes de cair num sono profundo e curto, pensa: “Parabéns pra mim, que seja”.
Kari Capraro
Enviado por Kari Capraro em 01/06/2006
Código do texto: T167467
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Sobre a autora
Kari Capraro
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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