Assessor da prefeitura

Perdeu o sono quando lhe falaram do cargo de assessor da prefeitura. Um cargo importante, para cuidar de pessoas, deveria ser dado a alguém capacitado.

- Que nada, rapaz! Aqui a gente não precisa saber de nada, não. O colega falava e mostrava a portaria de nomeação de diretor de cultura. Aqui não tem que se preocupar. Nem sei ler direito e virei diretor de cultura. O que você sabe fazer?

Envergonhadamente: - Não sei fazer nada.

O outro sorriu: - Melhor ainda. Quanto menos capaz, melhores cargos você consegue. Não sei nada de Literatura, nem de música, nem de cinema, nem de teatro, dança, escultura, pintura. Não sei nada de nada.

- E se chegar algum problema sério?

- Já aprendi isso. Eu carimbo, entrego uma via ao interessado e, na via que ficou comigo, escrevo: em análise técnica.

O assessor que perdera o sono recebeu a incumbência de participar de uma reunião em Florianópolis. Arrumou as malas, comprou a passagem de ônibus, percorreu ansiosamente os novecentos quilômetros e esperou as quatro horas e meia até amanhecer. Sabia dos recursos escassos da prefeitura e escolhera uma pensão barata. Dividir o quarto com alguns estranhos durante uma semana não parecia ruim.

Desceu do ônibus encantado com a praia, entrou no hotel de portas de vidro e surpreendeu-se ao verificar, sentados em volta da mesa de café da manhã, os demais assessores da prefeitura: o diretor de cultura, que lhe ensinara a protelar os pedidos dos munícipes, o assessor do assessor do assessor do secretário de educação, de saúde, de agricultura, de meio-ambiente, de negócios burocráticos, de gabinete, de serviços de rua, de cuidados de árvores e zeladoria de bens imateriais – quais seriam os bens imateriais da prefeitura?

Beliscou uns salgadinhos, bebeu três copos de suco de laranja e comeu duas panquecas – uma de carne e outra de frango. Olhava desconfiado: - Quando nos encontramos com os demais participantes do congresso?

Os assessores entreolharam-se. Que outros participantes? Por que estavam reunidos ali, indagou curioso.

- Ora, falou o assessor do assessor do assessor do superintendente supremo do trânsito. Estamos aqui para discutir uma campanha de conscientização do trânsito. As estatísticas, continuou com gestos professorais, confirmam aumento de acidentes na rua do cemitério. Precisamos discutir sobre isso.

- E quando começamos? Perguntou ansioso.

- Depois do jantar.

Passaram o dia na piscina, caminharam pela praia, beberam cerveja, vinho e conhaque por conta da prefeitura, lembrando sempre da nota fiscal com a qual seriam ressarcidos. À noite, cansados da vadiagem, jantaram na Lagoa da Conceição, entraram numa boate e presenciaram o nascer do sol na Barra Azul. Inquieto, o assessor questionou quando discutiriam os problemas do trânsito. A cara feia – feia por natureza – do diretor de cultura inibiu-lhe a insistência.

Os vinte e três assessores dedicaram-se essencialmente a gastar dinheiro da prefeitura. Foram repreendidos pela polícia por darem em cima das jovens que passeavam nas praias e engordaram os lucros de um dos hotéis mais caros do litoral latino-americano. E o trânsito?

Dos dez dias do congresso fantasma, os vinte e três assessores se reuniram por quarenta minutos para descartar campanhas educativas em rádios e jornais, desaprovar a confecção de panfletos (a fim de economizar os recursos da prefeitura) e votar por unanimidade, em regime de urgência urgentíssima, a necessidade de espalhar placas de advertência.

- Que placas colocar? Perguntou o assessor inexperiente.

- Isso é assunto para outro congresso que realizaremos no começo de agosto em Copacabana, no Rio. Quinze dias de trabalho duro! Frisou o diretor de cultura, reforçando o riso geral comemorando a notícia.

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 9 de julho de 2009.

VICENTÔNIO REGIS DO NASCIMENTO SILVA (www.vicentonio.blogspot.com) é Educador, Crítico Literário e Cronista. Assina a coluna “Literatura”, publicada semanalmente no Jornal de Assis (Assis – SP).