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Texto

Piolho de galinha

      Para quem é da roça ou já morou, sabe do que estou falando, para quem nunca teve a oportunidade de ver (não precisam fazer questão) vou descrevê-lo rapidamente, trata-se de um minúsculo bicho, que vivem aos montes, gostam de calor e por isso encontra-se principalmente nas galinhas caipiras, por estarem normalmente chocas, onde a concentração de caloria é necessária para a formação do embrião. Soluções não faltam para resolver o problema, fumo picado no ninho, pingo de creolina atrás do pescoço, banhos gelados após a choca e já me disseram que em alguns lugares colocaram naftalina perto do ninho, por aí vocês percebem o quanto esse bichinho perturba, não tem aquele que fique cismado ao entrar num galinheiro empesteado, e quando não tem como evitar, saiu do galinheiro tira a roupa e põe na água.
         E o que vocês tem a ver com isso, devem estar se perguntando? Na verdade comecei descrevendo o bicho e algumas possíveis soluções para acabar com eles, pois o enredo irá se basear num acontecimento envolvendo esses bichinhos e eu, ocorrido há uns quinze anos, e só de lembrar me volta à coceira. Retornando de mais uma feira, o carro quis quebrar (ainda bem) no centro da cidade de Suçuarana - BA, sete da noite, um calor terrível, cansado, louco para chegar a casa, que ficava uns 180 km dali, além de mim, meu tio e o motorista estavam juntos. Sem ônibus para voltar (o último saiu ás dezoito horas e o primeiro só às cinco da manhã), meu tio procurou uma pousada para “esticarmos o esqueleto” (descansar), vai dali, vai de lá e nada, sem alternativas apelou para uma casa que alugava quartos, (o motorista tinha ido buscar auxilio para o conserto pegando uma carona), já tomados banho, a senhora dona da pensão nos serviu uma bela janta, que por educação não repeti mais que duas vezes, assistimos à novela, e ao bater o sono cada um foi para o seu quarto, tão pequenos que só cabia uma cama e mais nada.
         Os quartos ficavam no fundo da casa, separados da mesma, e no trajeto passávamos por um galinheiro, me despedi dos dois e entrei no quarto, um travesseiro, um lençol e uma coberta fininha, até aí tudo bem, com aquele calor mais que o essencial, o pior estava por vir, com medo de ataque de morcegos, a senhora deixava uma lâmpada acesa no galinheiro, que pela fresta da janela vinha em meu rosto. Por volta da meia noite, incomodado com o reflexo da luz, comecei a sentir uma coceira pelo corpo, e quanto mais coçava, parecia que aumentava mais, levantei e fui ao banheiro saber o que estava acontecendo, e a surpresa ao chegar lá, era que o meu tio já se encontrava no banheiro, provavelmente pelo mesmo problema, voltei para cama e ali permaneci deitado esperando o sono me vencer.
         Vencido, nem sentia mais a coceira, agora era só descansar, duas da manhã, o galo teve a infeliz ideia de iniciar a cantar, pronto, para ajudar a coceira resolveu aparecer com mais intensidade, sem poder sair (uma chuva impedia), fiquei preso no quarto junto com os piolhos de galinha (só soube depois), em pé num canto do quarto, aguardava desesperado as horas passarem e nem precisei esperar muito. Três da manhã (chuva caindo), meu tio bate na porta já trocado e pede para me trocar, debaixo de chuva mesmo saímos, após beber o café, em direção a rodoviária.
       Chegamos molhados, mas aliviados da porcaria dos piolhos de galinha, da coceira e do canto do galo, ali ficamos com o corpo molhado, com frio e sono, contudo longe dos piolhos e do galo, o que deixava aquela situação razoável perto do que tínhamos acabado de passar. Entramos no ônibus e seguimos direto para o fundo, desmaiamos e nem vimos onde deveríamos descer, fomos acordados pelo motorista do ônibus na rodoviária da nossa cidade, nem nos importamos com a necessidade de pegar outro ônibus, agora urbano, para o nosso bairro, com a roupa um pouco mais seca sentimos algumas coceiras (será?) e imediatamente ao chegar ao doce lar joguei a roupa no tanque e enchi de água. De vez em quando tenho a impressão que até hoje ainda carrego alguns no corpo, o bicho que gruda!  Sai pra lá PIOLHO DE GALINHA!
Regor Illesac
Enviado por Regor Illesac em 17/07/2009
Código do texto: T1703784

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Sobre o autor
Regor Illesac
Arujá - São Paulo - Brasil, 32 anos
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