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Quando um pequeno tanque pode ser um oceano



Intriga-me essa sensibilidade nas crianças em que os sentimentos a determinadas coisas e situações tomam proporções enormes e os adultos nem se dão conta. Acho que elas, assim como os povos primitivos tendem a animar tudo a sua volta como se tivesse vida, alma, e portanto uma força mágica e intensa.
Quando eu tinha seis anos, morava em Santos, bem perto do mar e nessa época, acreditem, era limpinho! Passávamos o dia na praia, eu e meu irmão, mergulhando em lugares que, por vezes, nem os pescadores iam. Um dia tive uma idéia. Era um mês em que havia muitas estrelas na beira do mar. Peguei uma toalha e coloquei um punhado delas dentro, rumando para casa ou, mais precisamente, correndo, com o coração batendo de alegria. A idéia era muito simples - ter aquelas belas estrelas em casa e tratar delas com muito carinho... tão lindas ! Chegando em casa, abri a torneira do tanque, enchi de água e coloquei-as lá dentro. Quando minha mãe viu, logo disse :

- ...mas que novidade é essa, agora ?!

Esfuziante, fui logo explicando:

- Pois é, não são lindas? Resolvi ter umas em casa. Acho que elas podem morar aqui, não ?

- Mas, Valéria - disse minha mãe - Quem disse que estrelas, vivem na água doce, elas vão morrer menina, se é que já não estão mortas !

A cozinheira, Dona Hilda, balançava a cabeça positivamente a tudo que a minha mãe dizia. Aquela era a sua chance de se deliciar me vendo pagar um mico, pois eu aprontava poucas e boas na cozinha. Diante daquela cena de completa reprovação, senti uma amarga constatação, de que poderia estar matando o que tanto encantava-me. Tive uma crise de choro ! Minha mãe então, percebeu que aquilo era muito sério para mim. Ela tinha provocado uma reação não muito agradável e sabiamente, disse:

- Faz o seguinte: Pega as estrelas agora, vai na praia e devolve ao mar. Corra para casa. Não olhe para trás ! e elas vão viver.

E foi o que eu fiz. Corri o mais que pude e joguei-as no mar. Não olhei para trás como minha mãe aconselhou. Ufa ! que alívio, cometi um erro mas consegui salva-las a tempo. Hoje, penso que muitas já deveriam estar mortas, mas minha mãe me salvou de um remorso gigante. As vezes, no universo de uma criança, a vida de algumas estrelas do mar, tem a importância de uma humanidade inteira, um tanque de lavar roupa pode ser um pequeno e confortável oceano. Coisas da infância...ou de poeta ?  Vai explicar !
Ana Valéria Sessa
Enviado por Ana Valéria Sessa em 09/06/2006
Reeditado em 03/10/2009
Código do texto: T172281

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Sobre a autora
Ana Valéria Sessa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Ana Valéria Sessa