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PERDENDO O TREM

Pasmem: eu tenho amigos gays!
Pode parecer bobagem, uma afirmação infantil, mas é a pura verdade: eu me espantei com o fato.
É claro que eu desconfiava. No fundo, já sabia. Mas alguma coisa me impedia de acreditar.
Ontem, se me perguntassem, eu diria que não tinha certeza e que achava errado afirmar algo tão radical a respeito de pessoas amigas. Como se o fato fosse ofensivo, uma agressão impensável numa relação de amizade.
Mas hoje, a verdade bateu na minha porta e eu abri. E vi com clareza não só o que era como o que me fazia não enxergar. Era algo que eu detesto, chego mesmo a abominar, mas que parece, habita em cada um de nós, e se manifesta desta ou daquela maneira. Trata-se do preconceito.
Ontem, se me perguntassem, eu diria que não tinha preconceito com nada.
Hoje, sei que isso não é verdade. E me doeu muito descobrir, pois estava sendo interiormente preconceituosa com pessoas que eu estimo tanto.
Mas a porta que se abriu deixou entrar muito mais que isso. Um banho de luz de descobertas que quase me fez cegar. Sentei-me no chão da pequena varanda de meu apartamento e fiquei um tempo assim, olhando o nada, contemplando a mim mesma.
Descobri que há tempo venho perdendo a hora do trem da vida. Ele passa pra cada um de nós no lugar e tempo certo. Mas a gente vez por outra perde. Às vezes dá pra sair correndo atrás, pegar numa próxima parada, mas nunca é a mesma coisa.
Descobri que tenho sido contemplativa demais com a minha vida. Fico na estação apreciando o movimento, vendo o trem chegar e partir, e por algum motivo que desconheço, perco quase todos. Depois, muito depois, saio em disparada, trilho afora. Nem sempre alcanço, e mesmo assim, é sempre tarde.
Descobri que hoje estou viajando num trem atrasado, num passado que ficou lá longe...
A minha geração, pós pílula anticoncepcional, viveu esta maravilha intensamente. Eu não. O mundo alucinógeno já estava aqui quando eu cheguei e certamente esbarrou em mim muitas vezes. Mas eu não percebi. As pessoas passaram a optar sobre seu próprio sexo, independente do que dizia em suas certidões de nascimento. E isso me parecia um mundo distante.
Aquelas pílulas libertadoras hoje me são desaconselhadas devido à idade. Mas se ele não usa camisinha, como eu faço? Não faço? Se a geração dele acha mais perigoso “contrair” uma bala perdida do que aids, o que eu digo? Se já vivi mais, melhor um prazer agora que um talvez depois.
Um baseado se faz enrolando uma certa erva em um papel próprio para cigarro artesanal. O papel é vendido em qualquer lugar. Ervas também, para os chás dos mais variados usos e gostos. Mas esta, não, sei lá porquê. Carqueja é horrível e há quem use. Gosto não se discute. O tal, depois de pronto, se acende, puxa, prensa e solta. Dizem que vai tudo pra cabeça. Que é lá que o barato acontece. Ou não. Acho que este trem eu perdi pra sempre.
Dois homens se hospedam num hotel e pedem um quarto com cama de casal. Preciso dizer mais?
Eu não entendo mais nada. Ou entendo, e não sei o que fazer com isso. Na verdade, estou mais uma vez parada na estação vendo o trem passar. O do meu presente está passando enquanto eu estou tentando alcançar aquele que passou há anos atrás. Anos atrás...
Também não adianta querer entrar no trem de hoje, pois me falta bagagem.
Espero que meus amigos me perdoem esta falta. Sei que, no fundo, jamais os discriminei. Apenas eu não sabia lidar com o fato. Na realidade, acho que tal qual na canção, eu “os protegia por amor, num codinome: amigos...”. e como diz o ditado: meus amigos não têm defeitos, e meus inimigos, não têm virtudes.
Espero também que eles continuem gostando de mim. Mesmo eu sendo assim, careta, estranha, do tipo mulher que gosta de homem, sabe?
Afinal, ninguém é perfeito.
Maria Luiza Falcão
Enviado por Maria Luiza Falcão em 09/06/2006
Código do texto: T172503
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Sobre a autora
Maria Luiza Falcão
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
20 textos (824 leituras)
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Maria Luiza Falcão