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Ingratidão

Ingratidão

 

Belvedere  Bruno
 

Rita sabia que podia contar com  Sandra sempre que precisasse. Sempre fora assim, desde  adolescentes. Agora, senhoras, com filhos e responsabilidades aumentadas, Sandra ainda apoiava a amiga, como uma espécie de  anjo da guarda.

Logo que Rita começou a sentir aquelas fortes dores de cabeça, Sandra correu de um lado para outro, buscando atendimento médico, pois, como  sempre,  Rita  estava sem plano de saúde, por falta de pagamento. Seu padrão de comportamento era este: descompromisso total com suas obrigações.  Sandra, então, mais uma vez, passou a suprir algumas necessidades da amiga.  Comprava remédios, levava  frutas e biscoitos e, todas as tardes, a visitava para  conversar sobre amenidades, distraí-la.  Os médicos ainda não sabiam qual era o problema de Rita; estavam pesquisando. Sem o plano de saúde, tudo se tornava mais difícil, moroso.

O  que causava admiração a Sandra era a disposição de Rita em sair de casa. Muitas vezes ao chegar, para visitá-la, não a encontrava, e os filhos  dela não sabiam dizer onde estava. Com todas as restrições médicas, não se poupava. Sandra nada comentava sobre as ausências, quando estavam juntas.

Certa tarde, Sandra chega  chegou  à casa de Rita, com uma sacola de remédios, biscoitos e revistas. Rita adorava revistas, principalmente aquelas que falavam sobre artistas, e  fofocas. Sandra   disse , sorridente:

- Trouxe, também, nosso lanche.  Uma surpresa! Mas só vou abrir na hora, pra não perder a graça.  Vamos lanchar antes de sairmos pra consulta. Doutor  Carlos  vai ver todos esses exames que você fez. Bota tempo aí!

Rita olhou a amiga,  fez  cara de nojo,  e disse:

- Tô cansada disso!  Não quero mais saber de médicos, remédios, nem de conversa fiada! Dona Cleuza, lá do Arsenal, tem me levado a um moço que cura só receitando ervas. Soube de um monte de gente que os médicos não davam jeito, e ele curou.  Há duas semanas, não tomo mais  os remédios que Dr. Carlos receitou, nem vou fazer mais exame nenhum. Até melhorei... Chega de  lenga-lenga!

Sandra olhou, balançando  a cabeça , com ar de tristeza. Rita  colocou as mãos na cintura e disse:

- Não fica com essa cara de Madalena arrependida, não. Eu te pedi alguma coisa? Você fez porque quis.  Me viro  sozinha, ora!

Sandra saiu,  dizendo:

- Desculpe minha inconveniência. Já tá na hora de perder essa mania  de querer resolver  tudo, pra todo mundo...

Caminhando pelas ruas, chorou,  percebendo que sua presença  sempre fora dispensável dentro daquele, e de muitos outros contextos em sua vida.

 
belvedere
Enviado por belvedere em 10/06/2006
Código do texto: T172863

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Sobre a autora
belvedere
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
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