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Crônicas da Esquina ( Burros )


BURROS

Ares muares também temos cá. Aqui, no aprazível bar do Costa, vez por outra, podemos nos deparar com uma besta orgulhosa de sua origem híbrida. Pode parecer estranho que esses eqüídeos de má cepa – uma espécie de centauro nas terras de Pindorama – tenham tanto prazer em revelarem-se inteiros, sem um mínimo de vergonha. Bestas arrogantes, zurram com propriedade e intrepidez. Como andam juntos, apertam-se as patas, abraçam-se e trotam felizes pelo recinto. Burros substantivos, jactam-se de nunca terem lido um livro sequer na vida. Nunca a desperdiçaram com um entretenimento tão fútil como esse.
Não se diga, entretanto, que não tenham assunto entre si. Seria uma injustiça com esses enfeites de presépio. Suas mesas têm sempre um ar festivo. De antolhos escuros, nunca bisbilhotam as mesas alheias. Elitistas sem que ninguém os invejem, fecham-se em seus nichos e refrescam-se com as cervejas que lhes alfafam a alma. Eloqüentes e posudos, ostentam seus cascos polidos e seus pêlos amaciados pela cosmética que os embelezam.
À certa altura, perguntará o leitor ainda não familiarizado com a esquina: Como reconhece-los? Como desvendar por trás da aparência humana o traço muar que os distingue dos demais?
Eis, nesse particular, a dificuldade, leitor. Mas também o seu lado agradável, pois o curioso se verá obrigado a desenvolver uma sutil sensibilidade para apanhar-lhes em delito flagrante. Apenas uma tênue camada de verniz oculta a verdadeira anatomia dessas bestas em tempo integral. São assim em toda parte. Em casa, no trabalho, nas ruas..
O contorno humano é apenas um holograma que, mesmo rústico, é suficiente para iludir a quase todos. Caso eu os nomeasse, mas fica isso um meu segredo, a casca se partiria como um espelho mágico,  e suas essências ( ? ) se revelariam nítidas como um filme de belíssima resolução.
É, caro leitor, para percebe-los, os sentidos têm de estar agudíssimos. Apele, se puder, para algo semelhante a uma fotografia “kirlian” e verá as auras flamejantes de burros brutais agarrados ao corpo como os dentes à grama que campeiam. Não se assuste, nem questione sua sobriedade por conta de eventuais cervejas que não estavam nos seus planos, mas vieram. O que você, refinado leitor, estiver vendo é exatamente o que se lhe apresenta: uma récula amestrada em trajes de gala, tão inúteis quanto as fisionomias humanas que fingem vestir.

                                                                                   Aldo Guerra
                                                                                  Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 10/06/2006
Código do texto: T172976
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra